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O artista alemão Kurt Barnert escapou da Alemanha Oriental e agora vive na Alemanha Ocidental, mas é atormentado por sua infância sob os nazistas e o regime da RDA.

Elenco

Tom Schilling
Kurt Barnert
Sebastian Koch
Professor Carl Seeband
Paula Beer
Ellie Seeband
Saskia Rosendahl
Elisabeth May
Oliver Masucci
Professor Antonius van Verten
Cai Cohrs
Kurt Barnert 6 Jahre
Ina Weisse
Martha Seeband

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Comentários (1)

Mateus da Silva Frota | quinta-feira, 02 de Maio de 2019 - 15:56

Depois desta absurda e coerente análise de Jessica Kiang, da revista de cinema e entretenimento criada em 1905, a Variety, eu tentarei fazer uma escrita, no mínimo, igual a sua brilhante formulação, no qual ela colocou: “...Uma das forças mais sutis de Never Look Away é a evocação de uma população derrotada na Guerra que não experimentou o comunismo como revolução, mas como uma substituição. As insígnias e os catecismos mudaram, mas as atitudes subjacentes permaneceram grotescamente semelhantes em sua priorização insensível do dogma sobre a decência."

Nunca Deixe de Lembrar é uma obra arrasadora de um país que não se encontrou em momento algum no século XX. Errado seria pensar que depois da reunificação, tudo ficou esquecido e todos os problemas desapareceram. Filmes sobre o neonazismo como o recente Kriegerin (2011), passado na Alemanha, mostram como dezenas de jovens ainda se sentem acolhidos e representados pelas ideias de Adolf Hitler, esquecidos – ou não – pela democracia liberal em vigência na atual Alemanha, estes vagam para lá e para cá, atrás de judeus, negros e estrangeiros. Agem de forma violenta, mas também bastante desordenada, sem programa nenhum (que bom).

É muito satisfatório saber que Florian Henckel von Donnersmarck voltou a filmar na Alemanha e sobre um assunto que pouco os alemães decidiram explorar nas artes (se comparado ao nazismo, é quase nada), isto é, a Alemanha Oriental. Os três principais são Goodbye, Lenin! (2003) de Wolfgang Becker; Der Baader Meinhof Komplex (2008) de Uli Edel e o mais aclamado pela crítica, Das Leben des Aderen (2006) do próprio Donnersmarck, inclusive vencedor do Oscar estrangeiro. Mas qual é a diferença fundamental entre estes três primeiros filmes e o mais recente Werk Ohne Autor, isto é, de nome estrangeiro Never Look Away?¹ Todos estes analisam a história da Alemanha, ou uma fração dela, no século XX (pós a Alemanha Nazista, e isto é fundamental). Mas apenas aqui que von Donnersmarck faz uma ligação direta entre o passado nazista e o “presente” comunista, em todos os outros, a burocracia estalinista já estava lá, aprontando das suas. Sim, como Jessica Kiang pontuou lá em cima no texto, da qual citei com louvação, a Alemanha Oriental/Comunista era nada mais do que uma potência vencida, que experimentava o comunismo russo como uma substituição a república racista de Hitler. Isso não tinha como dar certo, parece nos dizer o autor, lá pelos 25 minutos de filme, quando ocorre a transição.

Cena simbólica para isso é quando o ex-médico nazista salva o filho prematuro de um militar do exército vermelho, de um parto que tinha tudo para dar errado. O Professor Doutor Carl Seeband (Sebastian Koch) mostra o seu serviço salvando essa criança russa em solo alemão – vejam bem!, e este militar soviético, ao invés de fazer a retalhação prevista para o médico (que havia matado pessoas “impuras”, “problemáticas” e degeneradas, como os nazistas gostavam de classificar), decide por salvá-lo: “Quem salva uma vida, salva o mundo todo”, ignorando todo o passado sombrio do Professor Doutor. É, é exatamente isso que você leitor pode estar pensando. A nova Alemanha, mesmo ocupada pelos russos, não enterrava de vez o seu passado sombrio, pelo contrário, trazia ele de volta, como uma perfumaria que talvez não fosse tão pesada como pensassem. Eixo do filme, da transição entre nazismo e comunismo, essa forma de representar o nascimento da República Democrática Alemã (DDR/RDA em português) é esplêndido.

Disso, cresce o pequeno Kurt Barnert (Tom Schilling), e de uma hora para outra, este que via sob o olhar desviado de uma inocente criança, o nazismo florescer e se enraizar na sua cidade de Dresden e perturbar a mente de sua amada prima; começa a estudar e trabalhar em uma outra Dresden, daquela que pinta em vermelho e branco em letras expressivas: O Comunismo É Para Todos e não mais “Alemanha acima de todos”. Uma loucura histórica que parece não afetar o jovem pintor, pelo menos não até os seus 30 anos, mas que soa como uma aberração aos espectador mais atento as mudanças de cenário.
Apesar de alguns saltos de uma passagem histórica para outra e de um final um tanto apressado (afinal, assim, o filme já completara mais de 180 minutos), que acabam por destoar um pouco de um filme bem construído, as passagens são bem construídas e os eixos temáticos mudam de forma sensível.

Após ingressar numa escola de vanguarda na Alemanha Ocidental, no satírico-pop “realismo capitalista”, Kurt acaba por se desconstruir como pintor (embora isso não fique tão claro enquanto pessoa/personagem), colocando para atrás tudo aquilo que havia pintado – representado nas cenas de seu professor sendo preso por apoiar o nazismo e ser um pedófilo e quando sua pintura na parede é tapada por tinta branca.

Levemente inspirado na vida do pintor alemão Gerhard Richter, que – como no filme – negava qualquer relação pessoal com as obras, o que levava os críticos mais próximos a ele, e mais investigativos também, a quase uma loucura. Daí surge o termo em alemão: Werk Ohne Autor (Uma Obra sem Autor), principalmente pela sua fase de pinturas nos anos 1968 em diante, isto é, praticamente pintando fotografias.
Richter chegou a polemizar bastante, fez retratos do grupo alemão terrorista armado pelo comunismo, os Baader-Meinhof e mais adianta, começou a fazer uma arte completamente abstrata, que foi, e é, curiosamente, a sua fase mais famosa internacionalmente nas pinturas, que acaba por não ficar representada no filme.

Sobre a história entre o pintor e a sua tia, que morre enquanto ele era pequeno, da qual não irei revelar mais detalhes para não soar como 'spoiler' aos que ainda não assistiram (provavelmente a maioria que lerá este texto), ela é sim, verdade. O que pode tornar tudo ainda mais dramático para quem assiste, inclusive para o próprio Gerhard.

Sua trilha sonora é magnificante, imponente e te leva a sentir cada desejo, cada traço na pintura, cada pincelada que o autor dá. Não por acaso, Gerhard Richter, o pintor verdadeiro, não quis assistir ao filme, por considerá-lo doloroso demais para ele; aliás, este tinha demasiadas discordâncias com o diretor Donnesmarck de sequer realizar o filme! Suas entrevistas, entre pintor e diretor, apesar de não reveladas² oficialmente, fato do qual Donnesmarck já se envolveu em escandâ-los no anterior A Vida Dos Outros (2006), já citado vencedor do Oscar, revelam o quanto este filme é grandioso. Apesar de sua face artesanal, isto é, um pintor, um romance e algumas tragédias, não é por pouco caso que muitos críticos internacionais³ o chamaram de obra-prima do século XXI. Embora tenha ficado apagado no circuito brasileiro de filmes, para variar e porque claro, temos que comer os enlatados psicóticos tipos Vingadores todo ano, invadindo cada sala de cinema nos cantos das metrópoles, tem muita bala no arsenal para se tornar um grande filme visto pelos brasileiros.

Não por coincidência, muitos críticos o compararam a David Lean (em que muitos filmes aparentemente “pequenos”, pela sua produção e estória, acabavam com uma duração e uma força artística gigantes), por sua magnitude e pelo seu tempo de duração. Além, é claro, da força de personagens como as duas mulheres da vida de Kurt, Ellie (Paula Beer) e Elisabeth May, sua tia (Saskia Rosendahl). Ou melhor, quem sabe, este sendo o homem na vida dessas mulheres. Estas, aliás, estão menos apagadas no filme do que aparenta. Um filme sobre homens pintando e brigando (na arte e na guerra) nunca foi tão feminino. Não bastasse a história da Alemanha ser representado pelo parto sofrido de uma mulher que nem tem o seu nome comentado e das pinturas de Kurt se resumirem às mulheres que na sua vida marcaram presença, é quando a sua arte alcança aquilo que ele define como o EU (Ich, ich, ich..), que seu filho com Ellie, então estéril, realmente nasce. O nascimento e a morte permeiam a vida de Kurt assim como permeia a vida dessa pátria tão sofrida.

Apesar de não ter vivido a Guerra como soldado e não ter perdido nada diretamente (como muitos outros que passam por seu caminho realmente perderam), ele a sua geração sofreram as consequências diretas desse conflito. Não na pele, mas na memória. O intervalo de construção de uma “ex”-sociedade nazista para uma futura sociedade comunista/capitalista foi tão curto que não extirpou a violência e a malevolência implícitas naqueles alemães – e talvez nem tivesse como. Na mensagem deixada no final (e é importante aqui que se entenda o início do filme, onde o Kurt pequeno e a sua tia passeiam por aquilo que os nazistas consideravam como “arte degenerada”), onde o repórter e o câmera decidem não filmar numa tela pintada por Kurt (por conter uma mulher nua) e nem em outra (por conter um soldado que aparenta ser um nazista); além de ser engraçada, demonstra fortemente o quanto qualquer nação, qualquer pessoa, qualquer arte que seja feita, é construído e reconstruído com aqueles fantasmas do passado. Desde já, um de meus filmes favoritos.

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¹ No momento em que escrevi essa crítica, não havia tradução oficial no Brasil para o filme, decidi por uma tradução do nome internacional: Nunca Deixe de Lembrar, mas bem poderia ser Trabalho Sem Autor.
² Ou ao menos pensamos que não foram reveladas, já que muitos fatos que o pintor não queria exposto no filme acabaram saindo e de forma mais direta impossível.
³ O famoso cineasta William Friedkin, de Operação França, O Exorcista e Killer Joe, chamou-o de “melhor filme que eu já vi”.

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