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Morre, na Itália, aos 91 anos, o compositor Ennio Morricone

Morreu hoje (06/07), aos 91 anos, o compositor italiano Ennio Morricone. Autor de mais de 500 trilhas sonoras, e parceiro de vários cineastas ao redor do mundo, ele foi daqueles artistas que deixou um legado tão forte que o grande público reconhecia seu nome sem talvez nem precisar conhecer o seu rosto. Suas partituras servem de exemplo de como se trabalha a música para o cinema: elas podiam passar completamente despercebidas, como se compostas para serem ouvidas pelo nosso inconsciente; ou podiam ser mais exibicionistas, para marcar o clima ou o ritmo de uma determinada sequência; ou no nível que extravasa o próprio limite da tela, para ganhar vida própria, independentemente dos filmes a que elas deveriam servir. Poucos compositores conseguem dar conta das três frentes. Morricone fazia isso só olhando o roteiro.

Morricone nasceu em Roma em novembro de 1928, um dos cinco filhos de um trompetista, que o ensinou e ler partituras e a tocar variados instrumentos. Em 1940, já com a 2ª Guerra Mundial em curso, ingressou na Academia Nacional de Santa Cecília. Já com a Itália livre, mas ainda recolhendo os cacos do conflito, trabalhou em programas de rádio e TV e para alguns cantores sob contrato.

Seu primeiro crédito como autor de uma trilha sonora data de 1961, no filme O Fascista, de Luciano Salce (que havia começado a carreira no Brasil com o clássico Floradas na Serra). Daí em diante, Morricone não parou mais, por vezes trabalhando em dez ou mais composições simultaneamente, quase sempre abrindo espaço para experimentos com novos instrumentos, como a gaita, o oboé, os violinos e as cordas. Muitos dos seus trabalhos se tornaram clássicos instantâneos, como as composições para Antes da Revolução, de Bertolucci; De Punhos Cerrtados, de Bellocchio; A Batalha de Argel, de Pontecorvo; Sacco e Vanzetti, de Montaldo; Os Sicilianos, de Verneuil; Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Petri; Gaviões e Passarinhos, de Pasolini, entre tanto outros.

Mas foi no faroeste e da parceria com o cineasta italiano Sérgio Leone que o nome de Morricone ganhou o mundo. Suas partituras para a Trilogia dos Dólares, formada por Por um Punhado de Dólares, Por Alguns Dólares a Mais, e Três Homens em Conflito, conferem um peso dramático, épico e operístico que os filmes nem tinham orçamento pra chegar. De tão marcante, o tema principal do último capítulo serviu de fundo musical dos comerciais dos cigarros Camel.

A união entre Morricone e Leone não parou por aí. A trilogia seguinte do diretor, que tratava da própria construção do sonho americano, viu o maestro escrever talvez suas três obras-primas: Era uma Vez no Oeste, Quando Explode a Vingança e Era uma Vez na América. Do primeiro capítulo, difícil não se emocionar com os acordes de Jill’s Theme, que pontua a chegada da personagem de Cláudia Cardinale na estação de trem; do último, tente não chorar ao som de Deborah’s Theme, que marca a sequência em que o personagem de Robert De Niro relembra, por uma fresta da parede, o grande amor da sua juventude. Não à toa, Leone preferia inverter a ordem das coisas e gravar algumas das cenas dos seus filmes após a trilha sonora ter sido composta por Morricone.

Após a morte precoce de Leone, em 1989, Morricone iniciou uma nova e produtiva parceria, dessa vez com o cineasta Giuseppe Tornatore. Se a carreira do diretor se tornou decepcionante com o passar do tempo, as trilhas, não. Daqui surgiram as suas obras-primas mais recentes, como as composições para Estamos Todos Bem, Malena, A Lenda do Pianista do Mar e, sobretudo, Cinema Paradiso, cuja sequência final não teria a mesma força se não fosse embalada pelos violinos rasgadamente melancólicos de Morricone.

Quem ainda precisa de uma prova de que Morricone foi um dos grandes compositores de trilhas sonoras do século XX, ao lado de nomes como Max Steiner, Alfred Newman, Miklós Rozsa, Franz Waxman, Bernard Herrmann, Nino Rota, Maurice Jarre, e John Williams, basta criar uma playlist com as trilhas que ele escreveu para 1900, de Bertolucci, Cinzas no Paraíso, de Mallick (sua primeira indicação ao Oscar); A Missão, de Joffe (um dos seus trabalhos mais famosos e experimentais); Os Intocáveis, de De Palma (nova indicação ao Oscar), e Missão: Marte, de novo com De Palma, e uma das suas peças mais subestimadas.

No final da sua carreira, com vários anos de atraso, Morricone ganhou dois Oscars: o primeiro, em 2007, pelo conjunto da obra, e o segundo, em 2015, pela trilha de Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino.

RIP (G)Ennio Morricone

Comentários (10)

Carlos Eduardo | segunda-feira, 06 de Julho de 2020 - 22:02

O melhor de todos. Grande mestre.

CitizenKadu | terça-feira, 07 de Julho de 2020 - 13:16

Enio Morricone foi e é um dos únicos compositores para o cinema, que transcende este nicho(concordo com o Tarantino quando recebeu o Globo de Ouro para o Enio e disse que ele ia além desse "ghetto" de compositores de trilha sonora). Talvez Herrman,Goldsmith e esse minimalismo do Zimmer se comparem em originalidade.Se não houvesse o filme poderiam ser considerados compositores originais da chamada "música erudita", erroneamente aina chamada de "clássica". Alguns outros dependem do filme, inclusive gente considerada gabaritada. Como John Willians, por exemplo, um ótimo construtor de temas nos anos 70 e 80 que excitavam em conjunto com o filme...mas um compositor mediano. Morricone ainda introduzia folclore, guitarra elétrica, harmonias atonais, canto lírico: ou seja, ele foi um dos grandes compositores eruditos depois da fase de Schoenberg. A grande maioria do resto ou se baseia em Hermann, no romantismo tardio, ou num jazz classudo como o do Mancini.

CitizenKadu | terça-feira, 07 de Julho de 2020 - 13:27

Engraçado que os italianos tem essa tendência a serem mais originais e menos pasticheiros de compositores precedentes; como Nino Rota que foi citado ali em cima, ou Giovanni Fusco.

CitizenKadu | terça-feira, 07 de Julho de 2020 - 13:31

Tem também o Prokofiev, mas assim como Quincy Jones, pra mim são compositores que fizeram bico no cinema. Da mesma forma que Marvin Gaye ou Isaac Hayes, são músicos que fizeram um "bico" na sétima arte(excelentes por sinal).Por isso que gostei da composição instrumental do La La Land, porque apesar do jazz, ele conseguiu ainda colocar um pouco de impressionismo debussyano, principalmente naquela música do planetário.Raro hoje em dia.

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