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Perfis

Foto de Bette Davis

Bette Davis

Idade
81 anos
Nascimento
05/04/1908
Falecimento
06/10/1989
País de nascimento
Estados Unidos
Local de nascimento
Lowell, Massachusetts

Se estivesse viva, Bette Davis teria completado 100 ano no último dia 5 de abril.

Responda rápido: qual a maior atriz do cinema americano de todos os tempos? A geração mais antiga talvez marque uma cruzinha na opção Katharine Hepburn. Outros poderão dizer o nome de Vanessa Redgrave e, cá entre nós, quem poderá dizer que estão errados? Os mais imberbes responderão Meryl Streep. Para todas essas pessoas, no entanto, um nome é unanimidade: Bette Davis. Com um carreira que se expande por praticamente todo o Século XX e um portifólio de mais de 80 filmes, Bette Davis se tornou referência para seus colegas na arte da interpretação e para os amantes do cinema clássico americano.

Nascida Ruth Elizabeth Davis, em Lowell, estado de Massachussets, em 5 de abril de 1908, Bette Davis era a primeira filha do casal Ruth Augusta Favor e Harlom Morrell Davis, ela uma fotógrafa de retratos, ele, um advogado especializado em disputas sobre marcas e patentes. A família ficaria completa um ano e meio depois, com o nascimento de Barbara.

Quando Bette Davis já contava 7 anos, seus pais se divorciaram, fazendo com  que com as duas filhas fossem criadas pela mãe. Em entrevistas dadas ao final da vida, a atriz revelou que nunca aceitara o gesto do pai, entendido como um abandono da família. Ao longo dos anos o relacionamento entre ambos sempre foi pela metade.

Sozinha e necessitando trabalhar, a mãe de Betty e Barbara as colocou numa escola em tempo integral e mudou-se para Nova York. As meninas permaneceram no colégio por dois anos. Em 1917, Ruth Davis conseguiu juntar economias suficientes para trazer suas filhas novamente para perto de si. Foi por volta dessa época que a atriz, inspirada por um amigo que acabara de ler La Couisine Bette, de Balzac, adotou “Betty” como seu nome oficial.

Em 1921, após assistir Rodolfo Valentino em Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, e Mary Pickford em O Pequeno Lorde, Bette Davis começou a se interessar pela arte da representação. Após concluir os estudos na Cushing Academy, em Massachussets, a moça de 17 anos, alimentava o desejo de ser atriz, mais ainda sem muita convicção. A certeza só viria mesmo em 1926, ao presenciar a performance da atriz Peg Entwistle, numa montagem da peça The Wild Duck, de Ibsen. Anos mais tarde, Davis diria: “antes daquela interpretação, eu somente queria ser atriz. Depois, eu precisava ser atriz”.

Com tamanha determinação, não foi surpresa ela conseguir um teste no Civic Repertory Theater, então uma das mais respeitadas companhias de teatro de Nova York. Sua diretora Eva LeGallienne, no entanto, não gostou da atuação da novata, rotulando-a de insincera e frívola. Não se dando por vencida, Bette Davis conseguiu uma vaga na escola de artes dramáticas de John Murray Anderson.

Seu primeiro papel remunerado lhe foi dado pela companhia teatral de George Cukor, em 1928. O famoso diretor não ficara propriamente impressionado com o teste da atriz, mas mesmo assim decidiu dar-lhe a chance de interpretar uma garota do coro numa peça chamada Broadway. Poucos meses depois, percebendo que sua primeira impressão estava certa, Cukor procurou Davis e lhe deu o bilhete azul.

Logo depois deste revés, foi chamada para atuar numa nova montagem de The Wild Duck, justamente na pele da personagem interpretada por Peg Entwistle, que tanto admirara anos antes. Após várias apresentações na Filadélfia, Washington e Boston, Davis estreou na Broadway em 1929, com a peça Broken Dishes, que permaneceu em cartaz por respeitáveis seis meses. Esse relativo sucesso a levou a estrelar, em 1930, uma nova produção chamada Solid South.

Ao mesmo tempo que a carreira de Bette Davis vinha alternando fracassos e sucessos, o cinema ia de vento em popa. Já estabelecida como uma das indústrias mais poderosas dos EUA, ela fora tomada de assalto há três anos, quando o personagem vivido por Al Jonson em O Cantor de Jazz resolvera falar em voz alta. O cinema nunca mais seria o mesmo. Roteiros elaborados pelo método tradicional, tiveram que ser reescritos de modo a incorporar o som em suas tramas. Atores e atrizes viram-se repentinamente numa sinuca de bico, já que muitos deles, ao abrir a boca, não eram capazes de emitir nem um fiapo de voz. Diante do aparato técnico da época, captar a fala dos artistas e, mais que isso, sincronizá-la com os movimentos labiais, era um desafio comparável à abertura do Mar Vermelho por Moisés, que Cecil B. de Mille filmara (sem som) há mais de uma década. Apesar de tudo, a nova tecnologia viera pra ficar.

Com a chegada do som, a boa oratória passou a ser um item do currículo dos atores e atrizes tão ou mais importante que belos olhos azuis ou coxas grossas. Quem tivesse habilidade com a voz era disputado a tapa pelos chefões de Hollywood (nem sempre no sentido figurado). Como de bobo não tinham nada, eles sabiam onde procurar: os palcos da Broadway. Não demorou muito para que Bette Davis, àquela altura ainda em cartaz com Solid South, fosse chamada para um teste na Universal. Sua carreira no cinema estava começando.

Carl Laemmle, o lendário big boss da Universal, não se entusiasmou com Bette Davis. “Não tem carisma”, dizia ele pelos quatro cantos do estúdio. Foi o fotógrafo Karl Freund que evitou a demissão precoce da atriz. Segundo ele, Bette Davis tinha olhos adoráveis, que combinavam com as características físicas da protagonista de uma produção chamada Bad Sister. Laemmle ouviu o conselho e as câmeras começaram a rodar. Lançado em 1931, Bad Sister era um filme destinado a cair no anonimato. Meio que involuntariamente,  acabou entrando para a história por marcar a estréia oficial de Bette Davis em película.

A fita fracassou nas bilheterias. O papel em Seed, seu filme seguinte, também de 1931, era muito pequeno para gerar algum comentário. De contrato renovado com a Universal por três meses, fez pequena aparição em A Ponte de Waterloo. Em 1932, foi emprestada para a Columbia Pictures e Capitol Films, onde rodou pequenas produções The Menace e Hell´s House. Com um portifólio de seis filmes, nem um deles bem sucedido, a Universal decidiu não renovar seu contrato.

Sem emprego, Bette Davis aprontou as malas para voltar a morar com a mãe em Nova York. Antes de embarcar, porém, recebeu um telefonema que mudaria sua vida. Do outro lado da linha estava o ator George Arliss, lendário ator britânico, vencedor do Oscar em 1930. Sua proposta era muito boa pra ser verdade: contracenar com ele na produção The Man Who Played God, da Warner Bros, história de um maestro e pianista que perde a audição. Ao dizer sim, Bette Davis sabia estava dando a virada definitiva na sua carreira. Sua interpretação foi elogiada pela crítica, o que lhe rendeu um contrato de cinco anos com o novo estúdio. Era o início de uma relação de amor e ódio que seria marcada pelos ataques de raiva da atriz nos sets, suspensões pela recusa de atuar em filmes considerados abaixo do seu talento e até mesmo litígios judiciais.

Ainda em 1932, Bette Davis casou-se com Harmon Oscar Nelson, um antigo namorado que ela conhecera na Cushing Academy. A diferença de salário de ambos era gigantesca (a essa altura do campeonato, Davis recebia U$ 1.000 semanais) e Nelson nunca aceitou plenamente o fato.

Nos primeiros três anos como contratada da Warner (leia-se entre 1932 e 1934), Bette Davis esteve em 14 filmes, entre eles No Palco da Vida, ao lado de Barbara Stanwyck, e Vinte Mil Anos em Sing Sing, único trabalho em que contracenou com seu ator favorito Spencer Tracy. Como quantidade não é sinônimo de qualidade, Davis reclamava da pobreza do material que era obrigada a filmar. Não vendo interesse da Warner em mudar o rumo daquela prosa, a atriz pediu para ser emprestada aos estúdios da RKO, no que foi atendida.

Seu primeiro trabalho para os novos patrões foi a adaptação do romance de Somerset Maugham, Escravos do Desejo, lançada nos cinemas em 1934. Na pele de Mildred Rogers, a cruel garçonete que se aproveita da bondade de um ingênuo estudante de medicina, vivido por Leslie Howard, Bette Davis saiu definitivamente do anonimato. Mais tarde, ela diria: “Os atores que se tornam estrelas geralmente são lembrados por um ou dois trabalhos. Como Judy Garland, em 'O Mágico de Oz', Garbo, em 'A Dama das Camélias', Marlon Brando, em 'Uma Rua Chamada Pecado'. A Mildred de 'Escravos do Desejo' foi um papel feito exatamente para mim. Ela foi a primeira vilã a protagonizar um filme no cinema”.

A interpretação de Bette Davis impressionara de tal forma que, ao descobrirem que ela não figurava entre as finalistas do Oscar daquele ano, associações ligadas ao cinema pediram explicações formais da Academia. O movimento ganhou tamanha força, que seu presidente, Howard Eastbrook, viu-se obrigado a aceitar, pela primeira e única vez na história do Oscar, que os votantes escrevessem na cédula o nome de uma atriz qualquer de sua preferência, independentemente daquelas que concorriam oficialmente ao prêmio.

De volta à Warner, Bette Davis esperava ser vista com outros olhos. No entanto, o estúdio continuava a escalando em produções rotineiras e descartáveis, com apenas duas exceções: Perigosa, de 1935, em que ela interpretava uma fracassada atriz que tentava  matar seu marido, e A Floresta Petrificada, de 1936, ao lado de Leslie Howard e Humphrey Bogart. Pelo primeiro, Bette Davis recebeu seu primeiro Oscar, prêmio que cheirava a compensação pela perda do ano anterior. Irritada por se julgar subestimada pelo estúdio, a atriz recusou-se a participar de todos os demais trabalhos. Ainda com o contrato em vigor, viajou para a Inglaterra, onde pretendia realizar dois filmes. Foi suspensa sem direito a vencimentos. Numa tática ousada para a época (talvez para qualquer época), Bette Davis processou a Warner num tribunal inglês, pleiteando a rescisão do seu vínculo com o estúdio sob o argumento de que ela era alvo de trabalho escravo.

A atriz saiu derrotada da batalha legal. Em 1937, voltou aos EUA, trazendo na bagagem dívidas e uma disposição de encerrar a carreira. Ao contrário do que podia se imaginar, a Warner não lhe deu uma geladeira. Antes disso, passou a respeitá-la. Bette Davis personificava a mulher determinada, moderna e independente, características que poderiam muito bem ser exploradas dramaturgicamente. Rapidamente, o estúdio fechou com ela um novo contrato e por um salário muito maior. Começava ali, de uma forma aparentemente inusitada, a fase mais rica de Bette Davis no cinema, um intervalo de quase 10 anos, dentro do qual ela realizou alguns de seus melhores filmes.

Mulher Marcada, de 1937, é o primeiro destes trabalhos. A fita era inspirada na vida do gangster Lucky Luciano e Davis interpretava uma prostituta. No ano seguinte, em Jezebel, viveu Julie Marsden, a sulista mimada que, diante da Guerra Civil americana, é obrigada a rever seus valores. Além de ter rendido à Bette Davis seu segundo Oscar, Jezebel ficou marcado como o primeiro dos três filmes em que a atriz foi dirigida por William Wyler, com quem teria um conturbado relacionamento amoroso.

Relacionamento amoroso? Mas peraí, Bette Davis não era casada? Sim, há 6 anos. Mas com o sucesso que a atriz começava a experimentar e a dificuldade de Harmon Nelson em emplacar uma carreira, não era difícil prever que o romance não ia lá às mil maravilhas. Desconfiado que sua mulher mantinha um affair com o milionário Howard Hughes (fato que nunca foi adequadamente esclarecido), Nelson pediu e obteve o divórcio.

Ainda sentida pela separação, Bette Davis iniciou as filmagens de Vitória Amarga. Ela pensou em abandonar a produção por causa dos problemas pessoais. Foi o produtor Hal Wallis que a demoveu da idéia, sugerindo que ela aproveitasse seu estado emocional em prol da composição da personagem. Sábia decisão: se tivesse ido avante, Vitória Amarga não seria um dos maiores sucessos de 1939 e Bette Davis não teria interpretado a personagem que, anos mais tarde, confessaria ser o seu favorito.

Ainda em 1939, ela estrelou três sucessos de bilheteria: Juarez, ao lado de Paul Muni, Eu Soube Amar, co-estrelado pela futura rival Miriam Hopkins, e Meu Reino por um Amor, seu primeiro filme colorido. Neste último, para viver o papel da sexagenária Rainha Elizabeth I, Bette Davis foi obrigada a raspar o cabelo e as sobrancelhas.

Em 1940 esteve em dois grandes sucessos. Tudo Isso e o Céu Também, de Anatole Litvak, e A Carta, novamente dirigida por William Wyler. Por esse segundo, no papel de uma esposa adúltera que mata seu amante, recebeu nova indicação ao Oscar (a  terceira seguida). Bette Davis achava que A Carta tinha a melhor cena de abertura dentre todos os seus filmes.

Nesta época, Bette Davis estava namorando o ator George Brent, com quem já trabalhara em várias oportunidades. Ele lhe propôs casamento. Sabe-se lá porque, ela recusou. Em vez de Brent, Davis preferiu dizer sim a Arthur Farnsworth, empresário do ramo de tintas. Eles se casaram em dezembro de 1940.

Em 1941, emplacou mais dois êxitos: A Grande Mentira, de Edmund Goulding, e Pérfida, adaptação da peça The Little Foxes, de Lillian Hellman. Vendo o resultado final de Pérfida, é impossível notar as discussões que rolavam entre a atriz e o diretor William Wyler. Bette não queria limitar sua interpretação a uma mera imitação da perfomance dada pela atriz Tallullah Bankhead na montagem teatral. Wyler, por sua vez, achava que o tom encontrado por Bankhead nos palcos era o mais apropriado. Difícil dizer quem estava certo ou errado. Turbulências à parte, Bette Davis foi mais uma vez indicada ao Oscar. Sua quarta nomeação seguida, no entanto, não foi suficiente para apagar as marcas deixadas pelas desavenças entre Davis e Wyler. A dupla nunca mais voltou a se reunir novamente.

Falando em Oscar, nesse mesmo ano de 41, Bette Davis tornou-se a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Como já era previsível, seu gênio não bateu com os demais membros, o que a fez renunciar ao cargo poucos meses depois.

A quinta indicação em seqüência (recorde igualado somente por Greer Garson) veio em 1942, com o drama romântico Estranha Passageira. Desse filme – já um pouco datado – duas lembranças não saem da cabeça dos cinéfilos: as seqüências em que Paul Henreid, ao som da trilha de Max Steiner, acende dois cigarros ao mesmo tempo e dá um à Bette e a frase final: “Não vamos pedir a lua. Nós temos as estrelas”.

O ano de 43 não foi dos melhores para a carreira da atriz. Seus dois filmes não foram bem recebidos pela crítica nem pelo público. O primeiro deles, Horas de Tormenta, pegava carona na Segunda Guerra Mundial para falar de movimentos anti-nazistas. Seu papel de esposa do líder da resistência era surpreendentemente pequeno para uma atriz do seu porte. O segundo, Uma Velha Amizade, ficou mais conhecido pelo clima hostil que havia entre as protagonistas Bette Davis e Miriam Hopkins. As duas foram inimigas pelo resto das suas carreiras. Hopkins alegava que Davis mantinha um romance com o marido dela, o diretor Anatole Litvak.
 
Ainda em 1943, seu segundo marido morreu dois dias depois de ter desmaiado numa rua em Hollywood. A autópsia revelou que o desmaio fora motivado por uma fratura no crânio, ocorrida duas semanas antes. Bette Davis prestou depoimento dizendo desconhecer qualquer evento que pudesse ter causado a fratura. Sem maiores elementos, a polícia considerou o caso como morte acidental.

Abalada, Davis quis se retirar do seu projeto seguinte, Vaidosa, programado para ser lançado em 1944. Jack Warner a convenceu a ficar. As filmagens foram tensas. Bette Davis ignorava as ordens do diretor Vincent Sherman, recusava-se a rodar determinadas seqüências e improvisava algumas falas, deixando fulos da vida seus companheiros de cena e o roteirista Julius Epstein. O resultado final não poderia ser diferente. Vaidosa nasceu velho e, já na época, provocava algumas risadas involuntárias. A própria atriz não estava nos seus melhores dias, exagerando nas caras e bocas. Mesmo assim, a Academia gostou e ela foi indicada pela sétima vez ao Oscar.

Em novembro de 1945, menos de dois anos depois da morte do seu segundo marido, Bette Davis decidiu se casar pela terceira vez, desta vez com o artista e pintor William Grant Sherry. Ela se sentiu atraída por Sherry porque ele nunca ouvira falar em alguém chamado Bette Davis, o que diminuía a diferença entre os dois.

Entre 45 e 46, a atriz participou de três filmes que, apesar de algumas qualidades, não deixaram maiores impressões: O Coração não Envelhece, Uma Vida Roubada e Que o Céu a Condene.

Depois uma seqüência de 58 filmes realizados entre 1931 e 1946 (impressionante média de quase 4 filmes por ano), Bette Davis passou o ano de 1946 em branco. O motivo para a ausência da telona não era falta de bons roteiros ou brigas com o estúdio ou com a equipe técnica. Naquele ano, Bette Davis, então com 38 anos, deu a luz a Bárbara, sua primeira filha. A atriz se envolveu de tal forma com a maternidade, que pensou seriamente em abandonar a carreira. Para piorar, seu relacionamento com Sherry não ia nada bem.

Na verdade, a carreira de Bette Davis já dava sinais de declínio. Após uma grande fase no final dos anos 30 e início dos 40, quando emplacou 5 ou 6 grandes sucessos em seqüência, seus filmes lançados a partir de 1944 não eram do mesmo quilate. Além disso, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o público americano passou a exigir um cinema mais adulto, com temática mais atual. Prova disso foi o enorme êxito de Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de Wyler, de 1946, que abordava a difícil adaptação dos ex-combatentes no conflito na Europa ao seu cotidiano nos EUA. Bette Davis parecia não percer essa mudança de ares. Ela continuou a embarcar em projetos dramáticos, lacrimosos e que já nasciam com cheiro de mofo. Em 1949, a corda roeu de vez. O retumbante fracasso de A Filha de Satanás, de King Vidor, fez com que Jack Warner, atendendo a um pedido da atriz, rescindisse seu contrato (é nesse filme que a atriz pronuncia a frase que se tornaria seu bordão particular: "What a dump!"). Chegava ao fim, de forma melancólica, o casamento de 19 anos entre Bette Davis e os estúdios da Warner Brothers.

Em 1949, Bette Davis esteve numa produção quase independente que só seria lançada dois anos depois com o nome de Depois da Tormenta. Pouco antes do encerramento da sua participação, Darryl F. Zanuck lhe ofereceu o papel de uma atriz de teatro já na meia idade que vê seus anos de estrelato cada vez mais distantes. O nome do personagem: Margo Channing. O filme: A Malvada. Precisa dizer algo mais?

Bette Davis sabia que não fora a primeira opção do chefão da Fox. Acima dela, estava o nome de Claudette Colbert. No entanto, um sério acidente nas costas a impedia de aceitar a proposta. Bette leu o roteiro, o achou o melhor que já lera na vida e, sem pensar duas vezes, disse sim a Zanuck.

Ao longo da produção, Bette Davis desenvolveu uma profunda amizade com sua parceira de tela, Anne Baxter, além de um romance com Garry Merrill, um dos astros da fita. Eles se casariam pouco tempo depois.

Por mais rico que fosse o personagem de Margo Channing (e era), a verdadeira protagonista da história era Eve, interpretada por Baxter. O filme é todo contado a partir de um longo flash-back, em que o passado da personagem é revelado pelos depoimentos de pessoas com quem ela se envolveu. Apesar disso, era a imagem de Margo Channing que o público levava consigo após as sessões. Não porque Anne Baxter estivesse mal. Pelo contrário. É que Bette Davis agarrara o papel como se fosse o último de sua vida (e, de certa forma, era mesmo). E quando Bette entrava em campo com esse espírito, não tinha pra ninguém.

Vista hoje, mais de cinqüenta anos depois, não seria exagero dizer que sua interpretação está entre as melhores do cinema americano do século passado. Irônica, emotiva, cética, manhosa e tudo o mais que se pode imaginar. Quem vê A Malvada, nunca mais esquece de Bette Davis, já querendo briga, dizendo a célebre frase: “Apertem seus cintos, esta será uma noite turbulenta”.

Por A Malvada, Bette Davis ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes (feito que poucos se lembram) e foi indicada pela oitava vez ao Oscar.

No mesmo ano, seu casamento com William Sherry chegou ao fim. O divórcio foi oficializado em 3 de julho de 1950. Menos de um mês depois, em 28 de julho, ela casou-se - pela quarta vez - com Merrill. Com o consentimento Sherry, pai de Barbara, Merrill a adotou como sua filha. Logo depois, o casal adotou uma menina, batizada de Margot. Eles viajaram para a Inglaterra, onde estrelaram o thriller de suspense Muher Maldita, lançado em 1951 e desde então fadado ao esquecimento. Diante do insucesso no estrangeiro, Bette Davis resolveu voltar aos EUA em 1952 para filmar Lágrimas da Esperança, projeto de baixo orçamento, de certa forma descartável, mas que mesmo assim rendeu à atriz sua nona indicação ao Oscar.

A lembrança de seu nome pela Academia, contudo, não escondia o fato de que de sua carreira estava em franco declínio. Após o inesperado sucesso de Lágrimas da Esperança, Bette Davis permaneceu três anos sem aparecer em um filme sequer. Sua vida pessoal estava igualmente conturbada. Apesar das constantes brigas com Merrill, o casal resolveu adotar um menino, a quem deram o nome de Michael. Ao mesmo tempo, ela teve quer ser operada de um problema nos ossos do queixo. Pra piorar, os médicos diagnosticaram que Margot, sua segunda filha, sofria de sérios distúrbios mentais motivados por um acidente que sofrera logo após seu nascimento. Davis foi obrigada a interná-la em várias instituições pelo resto da vida.

Durante a segunda metade da década de 50, Bette Davis focou sua carreira em filmes feitos para a televisão. Seus poucos papéis no cinema não impressionaram. Em 1955, voltou a interpretar a Rainha Elizabeth I, no pesadão A Rainha Tirana, de Henry Koster, e, em 1956, esteve em A Festa de Casamento, de Richard Brooks, no papel da esposa de um taxista vivido por Ernest Borgnine. E nada mais.

Em julho de 1960, após 10 anos de união, Bette Davis e Garry Merrill se divorciaram.  Um ano depois, a atriz emplacou um modesto sucesso na comédia Dama por um Dia, que marcaria o último trabalho do diretor Frank Capra. Por sua atuação, Bette Davis foi indicada ao Globo de Ouro. Sua carreira recebeu um novo fôlego em 1962, com o thriller de terror psicológico O Que Aconteceu com Baby Jane?, de Robert Aldrich. Ao lado de Joan Crawford, sua arqui-rival dos tempos da Warner, Bette Davis levou para as telas a figura de Baby Jane Hudson, que vive reclusa com a irmã paralítica, em sua própria casa, na esperança de um retorno ao mundo dos espetáculos. Davis aproveitou os aspectos bizarros da história para exagerar da maquiagem, nos gestos e nos olhares da sua personagem. Pelo papel, ela recebeu sua décima e última indicação ao Oscar (recorde superado anos depois por Katherine Hepburn e Meryl Streep). 

Sim, era incrível, mas Bette Davis estava de volta! Em 1964, estrelou três filmes: o suspense Alguém Morreu no Meu Lugar, em que interpretava gêmeas; o drama camp Escândalo na Sociedade, no papel da mãe de Susan Hayward, com quem teve ríspidas discussões durante as filmagens; e Com a Maldade na Alma, tentativa do diretor Robert Aldrich de trabalhar num terreno próximo à Baby Jane. Após ouvir um não de Joan Crawford, Aldrich contou com Olívia de Havilland para contracenar com Bette Davis. A estratégia deu certo e Com a Maldade na Alma recebeu 7 indicações ao Oscars, além de ter sido enorme êxito de bilheteria.

Os anos 70 chegaram e Bette Davis foi se afastando definitivamente do cinema. Seu trabalho passou a se concentrar na televisão. E mesmo nesse veículo, a atriz bateu de frente com as novas estrelas do momento, como Karen Black e Faye Dunaway. Em 1979, ganhou um Emmy pelo drama Duas Estranhas – História de Mãe e Filha.

Tornou-se conhecida do público mais jovem quando, em 1981, a cantora Kim Carnes lançou a canção Bette Davis´ Eyes, que se tornou um sucesso pelo mundo à fora. Nos EUA, ela permaneceu como a mais tocada nas rádios durante dois meses. Em 1983, detectou um câncer de mama. Duas semanas após a cirurgia para a retirada do tumor, sofreu uma série de pequenos derrames, que paralisaram o lado direito da sua face e seu braço esquerdo. Após um longo período de fisioterapia, a atriz recuperou parte dos movimentos.

Em 1985, já com a saúde estabilizada, Bette Davis viajou à Inglaterra para participar de mais uma produção para a TV. Ao retornar aos EUA, descobriu que sua filha Bárbara publicara um livro de memórias intitulado My Mother´s Keeper, no qual Davis era pintada como uma mãe extremamente autoritária e que tinha problemas com o álcool. Vários amigos da atriz saíram em sua defesa, alegando que os fatos descritos por Bárbara não tinham qualquer fundamento. Até seu ex-marido Merrill, de quem se separara há 25 anos, fez questão de dar uma entrevista à CNN refutando a versão apresentada no livro. Bette Davis nunca mais viu a filha.

Seus últimos dois filmes para cinema foram o elogiado As Baleias de Agosto, de 1987, em que Bette Davis interpreta a irmã de Lillian Gish, lendária estrela do cinema mudo, e A Madrasta, de 1989, cujas filmagens abandonou no meio por desavenças com o diretor Larry Cohen.

Nesse mesmo ano de 1989, Bette Davis foi avisada que o câncer na mama retornara. Mesmo combalida, ela encontrou forças para viajar à Espanha e ser homenageada pelo Festival Internacional de Cinema de San Sebastian. Durante o evento,  no entanto, a atriz voltou a passar mal. Sem forças para retornar aos EUA, foi deslocada para a França, onde faleceu no dia 6 de outubro. Bette Davis está enterrada em Los Angeles, ao lado da mãe, Ruthie, e da irmã, Bobby. Na lápide, lê-se o epitáfio que lhe foi sugerido por Joseph Mankiewicz logo após a conclusão das filmagens de A Malvada: “Ela fez pelo modo mais difícil”.

Bette Davis é daquelas figuras que os americanos gostam de chamar de larger than life.  Sim, ela era geniosa e temperamental. Sim, ela criou várias inimizades com os colegas de trabalho. Sim, fez muitos filmes ruins. Mas sua personalidade sempre foi sinônimo de uma mulher forte, sabedora de seu valor, que apostava no seu taco e que não admitia ser tratada como objeto pelos chefes de estúdio. Em outras palavras, valores que as mulheres nascidas três gerações mais tarde, ainda lutam para conquistar. Vista suas atitudes com o olhar atual, em que se preza a igualdade entre os sexos, Bette Davis conseguiu algo praticamente impensável: ser o símbolo do mais puro feminismo numa época em que essa expressão deveria parecer grego até mesmo para os gregos.

Já faz muitos anos que Bette Davis nos deixou. No entanto, para os cinéfilos, a impressão é que ela está viva, acessível através de seus filmes que nunca deixaram de ser exibidos na televisão, das coleções de DVD, das biografias escritas a seu respeito. Esse culto em torno do nome de um artista é reservado apenas àqueles que aqui pisaram e deixaram sua marca.

Bette Davis foi uma destas pessoas.

Filmografia

Título Prêmios Ano Notas
Malvada, A
Margo Channing
Festival de Cannes (prêmio)
Oscar (indicação)
Globo de Ouro (indicação)
1950
8,9
8,7
Oscar (indicação)
Globo de Ouro (indicação)
1962
8,1
8,4
Cliente Morto Não Paga
(imagens do filme Que o Céu a Condene)
1982
7,2
1964
Carta, A
Leslie Crosbie
Oscar (indicação) 1940
7,1
Dama por um Dia
Ana das Maçãs
Globo de Ouro (indicação) 1961
7,8
Com a Maldade na Alma
Charlotte Hollis
1964
7,8
Pérfida
Regina Giddens
Oscar (indicação) 1941
8,3
Jezebel
Julie
Oscar (prêmio) 1938
7,3
Perigosa
Joyce Heath
Oscar (prêmio) 1935
Estranha Passageira, A
Charlotte Vale
Oscar (indicação) 1942
7,8
Vitória Amarga
Judith Traherne
Oscar (indicação) 1939
7,1
Morte Sobre o Nilo
Marie Van Schuyler
1978
6,6
Escravos do Desejo
Mildred Rogers
Oscar (indicação) 1934
7,1
Mulher Marcada
Mary Dwight Strauber
1937
Satã Jantou Lá em Casa
Maggie Cutler
1942
Grande Mentira, A
Maggie Patterson Van Allen
1941
Vaidosa
Fanny Trellis
Oscar (indicação) 1944
Eu Soube Amar
Charlotte Lovell
1939
Cinzas do Passado
Mary Donnell
1937
1965
Semeando a Ilusão
A Milionária
1972
Velha Amizade, Uma
Kit Marlowe
1943
Lágrimas Amargas
Margaret Elliot
Oscar (indicação) 1952
Vida Roubada, Uma
Kate Bosworth / Patricia Bosworth
1946
Nascida para o Mal
Stanley Timberlake
1942
Floresta Petrificada, A
Gabrielle Maple
1936
6,6
Aniversário, O
Sra. Taggart
1968
Direito de Morrer
Mini Dwyer
1983
Mulher Maldita
Janet Frobisher
1951
Baleias de Agosto
Libby Strong
1987
7,4
Tudo Isto e o Céu Também
Henriette Deluzy-Desportes
1940
Rainha Tirana, A
Rainha Elizabeth I
1955
Semente
Margaret Carter
1931
Irmã Má, A
Laura Madison
1931
1978
Meu Reino Por Um Amor
Rainha Elizabeth
1939
1983
Amante de Seu Marido
Helen Bauer
1933
Piano Para Mrs. Cimino, Um
Esther McDonald Cimino
1982
Depois da Tormenta
Joyce Ramsey
1951
Desaparecidos, Os
Norma Roberts
1933
Festa de Casamento, A
Sra. Agnes Hurley
1956
Filha de Satanás, A
Rosa Moline
1949
1943
Homem Deus, O
Grace Blair
1932
Talhado Para Campeão
Louise 'Fluff' Phillips
1937
Horas de Tormenta
Sara Muller
1943
Stardust: The Bette Davis Story
Ela mesma (imagens de arquivo)
2006
Satan Met a Lady
Valerie Purvis
1936
Mansão Macabra, A
Tia Elizabeth
1976
Modas de 34
Lynn Mason
1934
Que o Céu a Condene
Christine Radcliffe
1946
Noiva da Primavera, A
Linda Gilman
1948
1972
Passe de Mágica, Um
Carrie Louise Serrocold
1985
Olhos na Floresta
Sra. Aylwood
1980
1959
Noiva Caiu do Céu, A
Joan Winfield
1941
Filhos de Sanchez, Os
Mulher (não creditado)
1978
1937
Juarez
Carlota
1939
1944
1932
1952
Três... Ainda é Bom!
Ruth Wescott
1932
Névoa de Mistério
Arlene Bradford
1934
Ponte de Waterloo, A
Janet Cronin
1931
Encontro no Inverno
Susan Grieve
1948
Bancando o Cavalheiro
Joan Martin
1934
Madrasta, A
Miranda Pierpoint
1989
Glória Feita de Ódio
Alice Gwynne Vanderbilt
1982
Coração Não Envelhece, O
Miss Lilly Moffat
1945
Flecha de Ouro, A
Daisy Appleby
1936
Quando o Amor Agarra
Miriam A. Brady
1935
Escândalo na Sociedade
Sra. Gerald Hayden
1964
Vidas Vazias
mãe de Dino
1963
Ainda Não Comecei a Lutar
Imperatriz Catarina
1959
1956
1979