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Perfis

Foto de Nicholas Ray

Nicholas Ray

Idade
67 anos
Nascimento
07/08/1911
Falecimento
16/06/1979
País de nascimento
Estados Unidos
Local de nascimento
Galesville, Wisconsin

Um cineasta que merece reverência por ter imprimido sua visão de mundo em sua obra.

"O cinema é a melodia do olhar".
Nicholas Ray

"Este filme teve mais importância na minha vida do que na vida de Nicholas Ray".
François Truffaut, sobre Johnny Guitar

 

"Eu sou um estranho por aqui". A frase verbalizada pelo personagem-título Johnny Guitar (1954) resume não apenas a relação de Nicholas Ray com Hollywood, mas a sua própria existência. Ray estreou na direção de um longa-metragem para cinema em 1947. Tinha 36 anos. Já tinha rodado tanto o mundo que parecia ter vivido o suficiente para duas ou três reencarnações. Em 1979, batido por um câncer no pulmão e um histórico de bebidas, drogas e jogatina, pendurou definitivamente as chuteiras. Nesse espaço de 32 anos, dirigiu 21 filmes (sem contar aqueles para os quais não recebeu o devido crédito). Uma revisão de sua obra revela uma notável coerência na temática e na forma. Seus personagens são verdadeiros espelhamentos da personalidade do próprio Ray: desajustados, solitários, amargurados, errantes pela noite, que lutam contra um passado que os oprime e contra uma sensação de inadequação com a ordem estabelecida. Ray talvez tenha sido um dos primeiros cineastas americanos a fugir da tradição hollywoodiana de ser um mero contador de histórias. Ao contrário, percebeu que os recursos técnicos proporcionados por aquele brinquedinho chamado cinema (luz, enquadramento e montagem) lhe permitiam ir muito além. Ele podia expressar em imagens o que se passava no íntimo de cada personagem, num nível de precisão que nem mesmo outras formas de manifestação artística, como a literatura, o teatro e a pintura, eram capazes de alcançar.

Nicholas Ray nasceu em 1911, na pequena cidade de Galesville, no Estado de Wisconsin. Descendia de alemães (por parte de pai) e noruegueses (por parte de mãe). Durante a adolescência, pulou de colégio em colégio, sendo expulso e suspenso de vários deles. Apesar deste histórico escolar nada recomendável, em 1930 foi aceito pela Universidade de Chicago.

Seu espírito inquieto fez com que ele largasse a faculdade e partisse para o estudo da arquitetura, sob as asas do renomado Frank Lloyd Wright. Os conhecimentos adquiridos nessa época foram de grande valia para que Ray, no futuro, criasse um estilo próprio como cineasta, no uso das cores, do espaço cênico e, especialmente, das potencialidades do cinemascope. Quando diferenças políticas começaram a interferir na relação entre o mestre e o aprendiz, Ray decidiu ganhar mundo.

Em 1932, chegou à Nova York, metrópole que estava anos-luz à frente da sua cidade natal, tanto do ponto de vista cultural quanto político. Foi lá que Ray teve o primeiro contato com um de suas paixões: o teatro. Não demorou muito para que ele se incorporasse a famosas companhias como o Theater of Action e Group Theater, muitas delas interessadas em introduzir nos EUA o pensamento socialista. Participou como ator na estréia na direção de um até então desconhecido Elia Kazan, cujo talento começava a despontar nos palcos norte-americanos (anos mais tarde, em 1945, quando se preparava para dirigir Laços Humanos, seu primeiro filme, Kazan convidaria Ray para ser seu assistente de direção). Nesta época, adquiriu larga experiência técnica no Federal Theater Project, produção teatral de Joseph Losey.

Nesta fase, Ray aprofundou-se na pesquisa da música folk americana, o que o fez conhecer mitos do gênero como Woody Guthrie e Josh White. Veio a Segunda Guerra e Ray foi contratado por John Houseman (que dali a algum tempo se associaria a Orson Welles e criaria o Mercury Theater), para tocar um programa de rádio chamado "Vozes da América".

Em 1936, Nicholas Ray casou-se com Jean Evans, jovem escritora com quem já vivia desde o início da década. No ano seguinte, nasceu Anthony, o primeiro filho do casal. Ray, no entanto, não conseguia ser o protótipo do marido fiel. Durante o casamento, Evans se habituou a ver seu marido envolvido em inúmeros casos amorosos  (e nem sempre com o sexo feminino). O casamento durou até 1940.

John Houseman tinha plena consciência desse lado mais sombrio da personalidade de Nicholas Ray (além de bissexual, havia ainda o fraco por bebidas e cassino). Contudo, o tempo que trabalharam juntos durante a guerra foi o suficiente para que ele percebesse um talento em potencial naquela figura alta, de cabelo crespo, fala mansa e jeito misterioso. Em 1946, logo após o conflito mundial, Houseman emprestou a Ray o romance Thieves Like Us, de Edward Anderson. Ray o adorou. A ambientação da história no sul americano, pós-depressão de 1929, lhe era muito familiar. Houseman, em parceria com o lendário produtor da RKO, Dore Schary, resolveu bancar. Juntos, produziram o primeiro longa-metragem de Nicholas Ray: Amarga Esperança. Embora tenha ficado datado em certos aspectos – especialmente na ingenuidade da relação do casal central – o filme tem um frescor de narrativa que se mantém até hoje. Foi uma das primeiras produções de Hollywood a usar helicópteros para filmar seqüências de ação.

A história do casal interpretado por Farley Granger e Cathy O´Donnell já prenunciava as características da obra de Nicholas Ray: personagens desajustados, alijados da sociedade e que carregam uma angústia na alma que nem mesmo eles sabem a verdadeira razão; o uso do claro e escuro – e mais tarde, das cores – não apenas com intuito estético, mas sobretudo psicológico; a ambientação noturna e o alvorecer surgindo como uma espécie de salvação etc.

Quando Amarga Esperança estava prestes a ser lançado, Howard Hughes chegou na RKO e tomou conta do pedaço. Sabe-se lá porque, ele decidiu engavetar o filme de Ray por dois anos. O tempo de carência expirou em 1949, quando o longa-metragem estreou num único cinema de Londres, onde ganhou inúmeros admiradores, a maioria deles críticos da influente revista Sight and Sound. Distribuído quase que secretamente nos EUA, não foi à toa que Amarga Esperança tenha fracassado nas bilheterias.

Ainda em 1949, provavelmente ansioso para voltar à ativa, Ray aceitou dirigir o drama de mistério A Vida Íntima de uma Mulher. Do filme, poucos se lembram. Mas essa sua segunda produção para a RKO se tornou famosa, pois foi nela que o diretor conheceu a atriz Gloria Grahame, que se tornaria sua segunda esposa. Gloria era casada, mas não resistiu às investidas de Ray. Quando viu que o resultado do teste de gravidez dera positivo, não pensou duas vezes: separou-se do marido e, no mesmo dia, viajou para Las Vegas, onde se casou com o diretor. Era evidente que aquela união tinha seus dias contados. Gloria passou a lua-de-mel sozinha, num quarto de hotel, esperando o retorno de Ray, sem saber que, àquela altura, ele torrava rios de dinheiro nos cassinos da cidade. Enquanto isso, o departamento de publicidade da RKO fazia o possível para tentar abafar aquilo que, no fundo, era um caso de flagrante adultério. Tudo em vão: o casal não conseguiu segurar a onda e se separou um ano depois. Ray ainda tentou manter a amizade e o relacionamento profissional. Tanto que, em 1950, já separados, ele a convidou para estrelar No Silêncio da Noite, um de seus filmes mais pessoais. Mas as relações foram cortadas de vez quando Ray flagrou Gloria tendo relações sexuais com Anthony, seu filho do primeiro do casamento, àquela altura ainda menor de idade. Ray e Gloria se divorciaram em 1952.

Ray estava com 38 anos e sua vida, até aquele momento, parecia ter saído de uma peça de Nelson Rodrigues ou de um filme de Douglas Sirk.

Ainda em 1949, Nicholas Ray foi chamado pelo astro Humphrey Bogart (que ficara impressionado com a originalidade de Amarga Esperança) para dirigir o drama social O Crime Não Compensa, uma produção feita em parceria entre a Columbia e a Santana Pictures Corporation, empresa recém criada por Bogart. No filme, Bogart interpreta Andrew Morton, o advogado de bom coração, que defende o adolescente problemático Nick Romano, vivido por John Derek, então com 23 anos (no futuro, Derek se tornaria conhecido pelos seus casamentos com Ursula Andress e Bo Derek). Apesar de a temática da delinqüência juvenil ser bastante próxima ao universo pessoal de Nicholas Ray, O Crime Não Compensa ressente-se de um roteiro excessivamente didático e esquemático. No entanto, o discurso final de Bogart no tribunal, mesmo visto com os olhos de hoje, ainda se revela extremamente atual. Mais tarde, Ray lamentaria o fato de seu filme ter sido realizado um ano antes de Os Esquecidos, clássico de Luis Buñuel que abordou o mesmo assunto. Indiscutivelmente superior, o filme de Buñuel teria prejudicado a carreira de O Crime Não Compensa.

Bogart e Ray voltaram a se reunir em 1950 no suspense psicológico No Silêncio da Noite, nova produção da Columbia/Santana. Bogart interpreta o roteirista Dixon Steele, principal suspeito pelo assassinato de uma garota com quem ele se reunira na véspera do crime para tratar a respeito da adaptação para o cinema de uma novela de segunda categoria. A história era vagamente baseada no romance de Dorothy B. Hughes, mas os roteiristas foram obrigados a se distanciar bastante do material original, de modo a adaptar o protagonista à persona de Bogart. Ao escolher o elenco de No Silêncio da Noite, Ray e Gloria Grahame ainda eram casados. E, apesar das brigas constantes, o diretor não teve dúvidas em escalá-la para o papel de Laurel Gray, a personagem que serve de álibi para Steele.

Talvez por transitar pelo mesmo território de unanimidades absolutas como Crepúsculo dos Deuses e Assim Estava Escrito, No Silêncio da Noite nunca chegou a encontrar seu público. Mesmo assim, foi um dos poucos filmes da Ray bem recebidos pela critica americana. Hoje, mais de 50 anos depois, ele é tido por muitos – talvez com um certo exagero – como uma verdadeira obra-prima.

De volta à RKO, Nicholas Ray vivia dentro de uma aparente contradição. Sob as poderosas e milionárias asas de Howard Hugues, ele passava ileso pela perseguição do Senado Americano aos comunistas (muito embora todos em Hollywood soubessem de suas tendências esquerdistas). Em contrapartida, o preço da liberdade era alto: Ray era obrigado a realizar trabalhos sob encomenda, de temáticas que pouco ou nada lhe diziam. Pertencem a essa fase filmes como Alma Sem Pudor (1950), estrelado por Joan Fontaine, amante da vez de Howard Hugues, e Horizonte de Glória (1951), veículo para o estrelato de John Wayne e cuja abordagem de extrema direita era diametralmente oposta às convicções políticas de Ray. Como uma espécie de funcionário de confiança da chefia, Ray também dirigiu vários trabalhos sem crédito para cineastas como Irving Reis, Chester Erskine, John Cromwell e Josef Von Stenberg.

No entanto, mesmo nessas condições de operário padrão, o talento do diretor se sobressaía. Particularmente, em dois pequenos filmes, Ray conseguiu se livrar das amarras dos roteiros escritos por terceiros, das limitações do estúdio e da censura da época. São eles Cinzas que Queimam e Paixão de Bravo, ambos lançados em 1952.

No primeiro, Robert Ryan interpreta o policial Jim Wilson, que vaga pela noite, tendo como companhia a podridão das ruas, os criminosos, as prostitutas e a escória da sociedade. Uma espécie de prenúncio de Travis Brickle, o personagem de Robert De Niro em Taxi Driver. Sua amargura está na total descrença dos homens, incapazes de encontrar a redenção em si mesmos, e na lembrança melancólica de épocas mais luminosas, em que conhecera o sucesso nos esportes. Na segunda parte do filme, quando ele é obrigado a investigar as pegadas de um estuprador, Morton sai das sombras e se joga para a clara luz do dia, ainda mais estourada pelo branco da neve na qual repousa a região em que ocorreu o crime. Da forma mais improvável, Wilson conhece Mary Malden, a personagem de Ida Lupino (segundo algumas fontes, ela, que também era cineasta, foi responsável pela filmagem de algumas cenas enquanto Ray se recuperava de uma enfermidade). E mesmo com todas as suas limitações, ela faz com que Wilson enxergue que é possível, afinal, acreditar no poder de superação do ser humano.

No segundo, Robert Mitchum interpreta Jeff McCloud, vaqueiro que decide retornar à sua terra natal , após muitos anos de ausência. Ele aceita a proposta de emprego de Wes Merritt, vivido por Arhur Kennedy, que quer aprender as técnicas de rodeio. No meio dos dois, está a personagem de Susan Hayward. Mais uma vez, os temas caros à obra de Ray estão presentes: a amargura, a solidão e a sensação de inadequação do protagonista em relação ao tempo presente.

Paixão de Bravo foi o último trabalho de Nicholas Ray para a RKO. Em 1953, livre, leve e solto, o diretor iniciou as filmagens daquele que seria um de seus grandes sucessos, tanto de público quanto de crítica: o anti-faroeste Johnny Guitar. Lançado em 1954, através da pequena Republic, o filme subverte completamente as convenções do gênero: as protagonistas são duas mulheres (Joan Crawford e Mercedes McCambridge). Temperamentais, são elas que dão as cartas. Os personagens masculinos, passivos, ficam num plano secundário. Com Johnny Guitar, Nicholas Ray começa a experimentar o efeito dramático da cor. O uso acentuado do verde, do vermelho e do branco nos figurinos de Vienna (Joan Crawford) caracterizam a personagem em diferentes momentos do filme. O espaço cênico passa ser melhor aproveitado. Logo no início, quando Guitar chega ao saloon, Vienna o avista do andar de cima, indicando uma clara superioridade da sua personalidade em relação ao personagem título.

Além disso, nas entrelinhas, a revisão de Johnny Guitar se torna ainda mais rica ao se perceber as diversas mensagens subliminares contidas no roteiro, todas elas atípicas para o gênero: os fálicos canos dos revólveres assumem nítida simbologia sexual; e na motivação dos personagens encontra-se uma clara deferência ao macarthismo.

Os críticos franceses tornaram Johnny Guitar objeto de culto instantâneo. Adeptos à teoria do autor, segundo a qual o filme era o resultado da visão de mundo de seu diretor, os integrantes da Cahiers Du Cinéma – que mais tarde revolucionariam o cinema com a nova onda –, celebraram o novo trabalho de Ray, impondo uma revisão sobre toda sua obra anterior. Mais de 50 anos depois de seus lançamentos, é lugar comum ver a expressão "obra-prima" ao lado de títulos como Amarga Esperança, Cinzas que Queimam e Paixão de Bravo. O status de "clássico" que esses filmes – e outros que Ray ainda faria – ganharam  com o tempo, adjetivo que sequer passava pela avaliação dos americanos, deve ser creditado na conta dos franceses.

Ainda no ano de 1954, Nicholas Ray escreveu um pequeno argumento intitulado "A Corrida Cega", que tratava da vida problemática de três adolescentes. Nascia ali aquele que seria seu maior sucesso de bilheteria e certamente sua obra mais famosa: Juventude Transviada. A Warner comprou a idéia e passou a bancar a produção. De início, Irving Schulman foi contratado para escrever o roteiro. Schulman e Ray tinham visões diferentes sobre a história e o estúdio foi obrigado a chamar Stewart Stern, que escrevera o script de Teresa, pequeno filme que Fred Zinnemann dirigira em 1951 e do qual Nicholas Ray era um grande fã. A parceria de Ray e Stern fluiu sem maiores problemas e ambos acabaram chegando à versão final do roteiro.

Ray, então, partiu para a escolha do seu elenco, especialmente do seu protagonista. Ele ouvira falar num jovem chamado James Dean, que acabara de concluir sua participação em Vidas Amargas, adaptação que Elia Kazan realizara da obra de John Steinbeck. Desconfianças à parte, Ray topou a parada e trouxe Dean para o projeto. O tempo provou que ele estava certo. Jim Stark  é o adolescente que, mesmo tendo casa, comida e carinho, representa a rebeldia contra a ordem das coisas. Ainda que um pouco velho para  o papel, James Dean retratou a angústia de toda uma geração de adolescentes americanos, sem referências patrióticas (não nos esqueçamos que os EUA haviam acabado de sair de um dos mais sangrentos conflitos mundiais e estava prestes a adentrar em outro, mais perigoso, em que o aperto de um botão poderia colocar toda a existência pelos ares) e paternas, que clamavam pela figura de pais mais presentes e atenciosos, e que não se limitassem a viver no conforto do american way of life. Afinal de contas, esses garotos estavam descobrindo na marra que, ao contrário de tudo o que lhes fora ensinado, não era feio ver um homem chorar.

O restante do elenco foi formado por Natalie Wood (que, apesar de ter apenas 16 anos, já podia ser considerada uma veterana), no papel de Judy, e Sal Mineo, vivendo Plato, o garoto tímido e que luta ferozmente por uma família de verdade.

Apesar da enorme diferença de idade – 27 anos para ser mais exato –, Nicholas Ray e Natalie Wood iniciaram um romance durante as filmagens (o clima nos bastidores deve ter esquentado, já que, segundo é confirmado pela biografia de Wood, ao iniciar a produção, ela já estava namorando Dennis Hopper, escalado no papel de Goon).

O resultado final de Juventude Transviada demonstra o domínio da mis-en-scene do diretor. A seqüência dos créditos já é brilhante, tanto pela sua composição, pelo uso da cor e pelo que nos diz a respeito do personagem principal. A câmera se situa praticamente ao nível chão. Em foco, num cinemascope de cair o queixo, está Jim Stark. Ele está deitado no asfalto, obviamente alcoolizado. À sua frente, um macaquinho de brinquedo. Gentilmente, usando as últimas gotas de consciência que lhe restam, Stark cobre o animal com um pedaço de jornal que voa pela calçada. A polícia chega e o leva à delegacia. Ele vai embora, não sem antes deixar seu pequeno e inanimado companheiro protegido. O tema central do filme – a necessidade de todos nós por atenção, proteção e compreensão, independentemente de nossos defeitos – está posto nesta única cena.

Certamente as seqüências mais famosas de Juventude Transviada são as ambientadas no planetário – cuja estrutura arquitetônica tem evidente efeito simbólico – e a corrida dos carros em direção ao penhasco. Mas outras cenas se destacam: Jim Stark dizendo a famosa frase “You´re tearing me apart!” [“Vocês estão acabando comigo”]; a briga de Stark com seus pais na escadaria da sala de estar (Ray faz uso de uma bela composição do quadro, com a mãe na parte superior de escada, Stark de pé, ao nível do chão, e o pai, sentado numa cadeira, em posição nitidamente de inferioridade em relação ao filho); as filmadas no interior da mansão abandonada, em que Stark, Judy e Plato, pela primeira vez, sentem-se integrantes de uma autentica família (nas palavras de Plato: “Você bem que poderia ser meu pai”); e, claro, toda a seqüência final, situada no alvorecer, que surge como a única salvação para a angústia daqueles personagens.

Juventude Transviada fez enorme sucesso de público, em parte pela temática pra lá de atual, em parte pela inesperada publicidade gerada pela trágica morte de James Dean, ocorrida apenas três semanas após a estréia nos cinemas. O filme recebeu indicações para Nicholas Ray (melhor argumento original), Natalie Wood (melhor atriz coadjuvante) e Sal Mineo (melhor ator coadjuvante), todos eles derrotados em suas respectivas categorias. James Dean também foi nomeado – mas por Vidas Amargas, de Elia Kazan, que fora lançado no mesmo ano (a primeira indicação póstuma concedida na história da Academia).

Logo em seguida, Ray realizou Sangue Ardente, um pequeno e quase desconhecido filme sobre ciganos, baseado em roteiro escrito por sua ex-mulher Jay Evans. Durante a produção, o diretor se interessou por um artigo de jornal chamado "Ten Feet Tall", sobre a vida de um professor viciado em cortisona. Era a gênese de outro de seus melhores filmes: Delírio de Loucura.

Assim que encerrou as filmagens de Sangue Ardente, o diretor correu atrás de financiamento e encontrou no ator James Mason o parceiro ideal. Mason era daqueles atores cujo talento dramático era reconhecido até pelo bilheteiro do cinema. Mas por algum motivo que nem mesmo ele sabia identificar, sua carreira teimava em não deslanchar. Em seu currículo já constavam trabalhos em filmes importantes como O Condenado (1947), A Raposa do Deserto (1951), Cinco Dedos (1952), Julio César (1953) e Nasce uma Estrela (1954) – pelo qual fora indicado ao Oscar. Após interpretar o Capitão Nemo, em 20.000 Léguas Submarinas (1954), um de seus personagens mais populares, Mason se viu tentado a dar um guinada na sua carreira, experimentando papéis mais desafiadores. Quando Nicholas Ray lhe ofereceu a chance de interpretar o professor Ed Avery, a oportunidade era muito boa para ser jogada fora. Ele embarcou no projeto de tal forma, que não se limitou a viver o protagonista como também concordou em investir capital do seu bolso.

Delírio de Loucura talvez seja o filme em que Nicholas Ray melhor explora os recursos do cinemascope. Impossível não reparar no cuidado com a distribuição dos atores no quadro; no uso das sombras nas paredes e nos tetos (a seqüência em que James Mason aplica o teste de matemática em seu filho é o melhor exemplo); nas cores dos figurinos de James Mason (o uniforme verde, o robe roxo e o terno preto) e dos objetos de cena (o frasco de remédios rosa); e nos planos filmados de baixo para cima, que acentua a sensação de auto-confiança proporcionada pelo vício da cortisona. Tudo contribui para acentuar a psicologia dos personagens.

No entanto, o público daqueles conservadores anos 50 não estava preparado para enxergar as virtudes de Delírio de Loucura e o filme foi um tremendo fracasso de bilheteria. Nicholas Ray catou os cacos, recolheu o orgulho ferido e, em 1957, realizou Amargo Triunfo, drama de guerra ambientado no Norte da África, estrelado por Richard Burton e Curt Jurgens. Novamente ignorado pelos críticos americanos, Amargo Triunfo foi celebrado por Jean-Luc Godard como o melhor filme daquele ano. Foi comentando esse trabalho, que o futuro cineasta francês escreveu a famosa frase: "Havia o teatro (Griffith), poesia (Murnau), pintura (Rossellini), dança (Eisenstein), música (Renoir). A partir de agora há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray."

Tal e qual Delírio de Loucura, Amargo Triunfo fechou no prejuízo. É possível afirmar que Ray nunca mais se recuperou desse novo revés. Apesar de contar com apenas 46 anos, sua saúde começou a dar sinais vermelhos no painel. Por volta dessa época, ele se casou com Betty Ute, uma desconhecida dançarina. Mas, como sempre, a fidelidade não era seu forte. Teve casos amorosos com Marilyn Monroe e Edie Wasserman, esposa de Lew Wasserman, o agente mais poderoso de Hollywood, sem contar os relacionamentos homossexuais.

Mesmo no olho do furacão, Ray encontrou tempo para dirigir, entre 1958 e 1960, três belos longas-metragens, incrivelmente coerentes com seu estilo e temática. São eles A Bela do Bas-Fond, estranha mistura de musical e filme de gângster, com Robert Taylor (interpretando um coxo) e Cyd Charisse (provando que seu talento dramático não se limitava apenas às suas insuperáveis pernas); Jornada Tétrica, com Burl Ives e Christopher Plummer, um dos primeiros trabalhos a tratar do tema ecológico; e, o melhor deles, Sangue Sobre a Neve, esplendido retrato da vida dos esquimós, com Anthony Quinn e Peter O’Toole. Numa revisão, Sangue Sobre a Neve não fica nada a dever aos clássicos Tabu, de Murnau, e Nanook, o Esquimó, do documentarista Robert Flaherty.

Em 1960, com a conta corrente pra lá de negativa, e cada vez mais dependente da bebida, Ray aceitou a proposta do produtor Samuel Bronston para dirigir dois épicos: O Rei dos Reis, refilmagem do clássico mudo de Cecil B. de Mille, lançado em 1961, e 55 Dias em Pequim, estrelado por Charlton Heston e Ava Gardner, que estreou em 1963. Durante as filmagens deste último, Ray sofreu um forte ataque cardíaco, que o obrigou se afastar do trabalho. Ao sentir que estava recuperado, viu que sua cadeira de diretor havia sido trocada por outras duas, nas quais se liam os nomes Andrew Morton e Guy Green. Deixando de ser um profissional confiável, cujos graves problemas de saúde poderiam colocar em risco os milhões de dólares investidos pelos executivos dos estúdios, Ray percebeu que sua carreira, na prática, estava encerrada.

Em 1969, casou-se pela quarta vez com Susan Schwartz, que conhecera numa viagem a Chicago. No seguinte, tornou-se professor de cinema na Universidade de Nova York. O contato com os alunos (Jim Jarmusch entre eles), fez bem para o diretor. Juntos, eles realizaram o semi-documentário We Can't Go Home Again (foi durante a montagem deste filme que o diretor perdeu uma das vistas). Passou a freqüentar as reuniões dos Alcoólicos Anônimos e, com muito esforço, conseguiu de fato dar uma basta no álcool. Num exame médico, descobriu que contraíra um câncer no cérebro.

Em meados dos anos 1970, aproximou-se do cineasta alemão Wim Wenders, um de seus maiores admiradores (o título da ficção cientifica Até o Fim do Mundo, lançada 1991, foi escolhido por Wenders por ser a última frase pronunciada em O Rei dos Reis). Em 1977, fez uma participação especial em O Amigo Americano, adaptação de Wenders do romance de Patricia Highsmith. Dois anos depois, eles começaram a trabalhar em Lighting Over Water, projeto concebido como um filme de ficção, sobre um pintor desenganado pelo câncer e que tenta viajar até à China em busca de sua salvação. Não demorou muito tempo para ambos perceberem a proximidade do tema com a vida particular do próprio Ray. Decidiram alterar todo o conceito projeto, transformando-o num documentário sobre os últimos dias da vida do diretor. Nos cinemas, o longa-metragem foi rebatizado de O Filme de Nick. Ray morreu em 16 de junho de 1979, em Nova York, de um novo câncer que aparecera em seus pulmões.

Gênio, mestre, diretor à frente de seu tempo? Ou um mero operário, cujas virtudes foram quase sempre super-avaliadas? Sinceramente as impressões pessoais sobre este ou aquele filme é o que menos importa. Os cinéfilos de hoje devem reverenciar o nome de Nicholas Ray, seus filmes (especialmente aqueles menos conhecidos), suas opiniões... Enfim, sua visão de mundo.

Filmografia

Título Prêmios Ano Notas
55 Dias em Pequim
Ministro norte-americano
1963
1977
8,0
Don't Expect Too Much
Ele Mesmo (Imagens de Arquivo)
2011
1973
1980
8,1
Título Prêmios Ano Notas
1955
7,5
7,7
Johnny Guitar
Roteirista
1954
8,0
8,0
Amarga Esperança
adaptação
1948
7,7
7,7
Cinzas que Queimam
adaptação
1951
8,6
8,2
1960
7,8
Amargo Triunfo
roteiro
1957
9,0
8,2
Mundo do Circo, O
história
1964
Três Patetas em Parada Musical, Os
argumento - não creditado
1946
1973
Filme de Nick, O
Roteirista
1980
8,1