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Caminho da Lua, A

(Over the Moon, 2020)
6,4
Média
11 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Imaginação materializada

6,5

Recordei, de certo modo, com A Caminho da Lua, de um período pelo qual nutro saudade. Um tempo da minha vida chamado infância. Confesso que lembro dela em flashes e, num desses que de vez em quando pipocam na mente, duas imagens aparecem. A minha própria, inclinada a ouvir e tomada de curiosidade, e a de minha mãe com suas histórias que aguçavam demais minha capacidade de criar ilustrações no subconsciente. Algumas histórias que eu considerava viajadas demais e outras que eu comparava com algo familiar. De todo modo, era muito bom ouví-las, ainda mais estando próximo do carinho e abraço maternos.

É necessário ressaltar essa lembrança, uma vez que o A Caminho da Lua parte de algo muito próximo disso. Nos quinze minutos iniciais, Fei Fei, a garotinha protagonista, é apresentada como uma menina que se vê deslumbrada com os contos fantásticos narrados pela mãe. Um salto no tempo ocorre, a mãe falece, e novamente a personagem central é colocada diante a uma situação que a faz realizar um exercício mental de imaginação. Coisa que todos nós, quando crianças ou mesmo quando adultos permitimo-nos fazer quando desejamos desenhar com um lápis figuras que não vemos, mas que no entanto acreditamos.

Você as colore, retoca do jeito que achar melhor. Essa é a primeira evidenciação de um filme que, no conjunto da direção de Glen Keane com o texto de Audrey Wells, concebe uma ambientação correta do que seria um vilarejo chinês, uma família típica do país em determinada região e estabelece um caminho inicial para o que será uma tentativa com êxito de dar asas ao imaginário ou, ainda, criar mecanismos para voar até ele. Fei Fei conhece bem uma das narrativas mais recontadas por sua mãe. A tratar de uma deusa mítica lunar, por óbvio vivendo no espaço, especificamente no satélite natural de nosso planeta Terra.

Fei Fei inicia sua construção de nave para chegar até onde almeja e, por consequência, conhecer a deusa que permeou sua imaginação infantil. Durante sua jornada preparatória, características do filme mostram que ele não navega no ineditismo, mas sabe replicar elementos de filmes consagrados dos estúdios Disney. Principalmente os números musicais, que aqui são bem graciosos e tem muita inspiração, alma, coração. A Caminho da Lua também é um filme muito (muito mesmo!) colorido, de tal modo que você já imagine a paleta de cores mais irrestrita possível.

Em termos estéticos, o design de quase tudo é uma mescla de traços infantis com uma sofisticação que a temática do enredo requer. Quando se está no reino de Lunária, várias formas são simplificadas, destacando-se somente pelas cores, remetendo a um aspecto imaginativo pueril. Entretanto, quando ocorre a viagem da protagonista até a Lua, a riqueza de detalhes é bem grande, sobretudo no interior do foguete construído pela menina.

Mas, e agora caindo numa definição até clichê, nem tudo são flores. Se por um lado você tem a experiência por trás de tudo pelo fato do comando caber a Glen Keane, que trabalhou como animador em filmes brilhantes de animação – pense por exemplo em A Bela e a Fera e A Pequena Sereia –, por outro você vê um texto que apressa demais as ações para que se chegue a uma resolução rapidamente. Se A Caminho da Lua fosse um ingrediente pertinente a uma receita, ele não teria tempo de cozimento suficiente. Quero dizer com isso que, em alguns aspectos, ele é cru, precoce. Encerra sua principal linha narrativa de supetão. Mais alguns minutos, talvez 15 a 20, poderiam quem sabe fazer bem ao filme. Over The Moon (no título original) é uma bola dentro da Netflix, que acerta mesmo que várias vezes mais requentando do que propriamente apostando em elementos de um dianteira, de uma novidade estético-narrativa. Lembrando, na condução da história, boas animações dos anos 80 e 90, o filme carece do refinamento que o estúdio do Mickey traz no arranjo dos elementos de uma animação.

Pra todos os efeitos, vale sim investir seu tempo numa animação com alguns personagens muito carismáticos (que fofura é o coelhinho Bungee!), um trato digno em sua homenagem à cultura da China – a renomada estilista Guo Pei, como ninguém melhor do que ela própria, cria os figurinos da deusa Chang’e de maneira exímia – e uma noção quase universal do que se deve ter para alcançar o sucesso com uma animação censura livre. Amor no trato com os personagens, riqueza no texto e no traço e, como é optado aqui, boas escolhas musicais, para render belos números como os cantados por Chang’e em performances que quebram a imagem sisuda e imponente do mito, transformando-o de deusa à diva pop, numa das subversões interessantíssimas de um filme que se permite sair do lugar comum. Felizmente, mais de uma vez.

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