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Críticas

Cineplayers

Aprendendo a amar com Gaspar Noé.

8,0
Se em Ninfomaníaca (Nymphomaniac, 2013), de Lars Von Trier, o amor era o segredo do sexo, em Love (idem, 2015), de Gaspar Noé, o amor é o segredo da vida. Parece um tanto hilário falar assim de um filme de Gaspar Noé, mas por mais incompreendido e extremista que seja, esse é o filme menos chocante e radical do diretor, que apesar de muitas cenas de sexo explícito, Noé apresenta uma experiência de visão única e ironicamente bela.

O filme conta a história de Murphy (Karl Glusman), um rapaz americano vivendo em Paris com a mulher e a filha deles. Extremamente de ressaca por causa do ano novo, Murphy recebe um telefonema da mãe de Electra, sua ex-namorada, perguntando se ele a viu, já que a mãe não sabe de seu paradeiro há dois meses. Murphy, porém, não vê Electra há dois anos, e o telefonema traz memórias de seu passado quando namorou com ela e suas eróticas aventuras.

Assim como foi vendido para o público, Love aparenta ser praticamente um pornô que só não é chamado de tal porque possui uma trama e é classificado como um filme de autor que passou em Cannes - o filme mesmo abre com uma cena onde Murphy e Electra se masturbam até gozarem, seguido por uma introdução com diálogos terríveis. Porém, após os primeiros vinte minutos, percebemos que tudo o que vai contra o filme é na verdade a visão do diretor perante a construção da ideologia de sua obra. Com isso, Gaspar Noé nos apresenta o personagem de Murphy, um jovem americano mimado, extremamente egoísta, machista e imaturo que só quer saber de sexo, drogas e festejar. Seu quarto, antes de conhecer Electra, é cheio de pôsteres de filmes e ele vive se gabando de como é um cineasta, sendo que ainda nem saiu da escola. Tem um comportamento super protetor com a namorada e uma ideologia toda liberal, mas quando é a vez da namorada aproveitar a parte dela, Murphy morre de inveja e começa a brigar.

Este comportamento de Murphy, porém, nada mais é do que a resposta para a sua imatura crença, que é viver a vida com o propósito de amar alguém intensamente, sem limites e experimentar sensações surreais através do sexo. Afinal, o filme é sobre isso, com longas cenas explícitas entre casais, threesomes, orgias e até mesmo sexo com um transexual. A ideologia de Murphy não é real no mundo a sua volta e ele é o único que não percebe. Electra mesmo diz que Murphy é um cara incrível, mas ele não sabe como amar, e suas atitudes imaturas fazem com que o casal entre em conflito todo o tempo. Afinal, grande parte das decisões sexuais entre o casal vem de Murphy, porém ele é o único que acaba fazendo besteiras e destruindo mais a relação entre os dois.

Gaspar mostra tudo isso através de uma narrativa não linear que começa com Murphy se lembrando do término de seu namoro e acaba quando eles se conheceram - uma característica já usada em seu filme Irreversível (Irréversible, 2001). Através de sua jornada, percebemos, assim como o personagem, que a relação que ele teve com Electra foi extremamente única, bela e pessoal e que eles realmente se amaram - algo que ele nunca havia percebido durante a relação deles, já que estava sempre tentando viver sua própria ideologia do amor, algo que nunca havia experimentado antes. Com isso, o que primeiramente aparentava ser um filme de sexo acaba sendo bastante interessante e tocante.

Ainda sim, Gaspar Noé é Gaspar Noé e às vezes ele abusa das cenas de sexo, sendo algumas um tanto desnecessárias. Ele obviamente ainda não aprendeu quando terminar seus filmes, causando uma inquietação na perna de que o filme poderia ter acabado vinte minutos antes. Sem contar a auto-citação a si próprio, criando às vezes um alter-ego para si mesmo no personagem de Murphy ao fazer com que o personagem diga na tela que quer fazer um filme sobre o amor onde o sexo é a coisa mais importante da vida. Ele mesmo é um dos personagens do filme, como o ex-namorado de Electra e dono da galeria de arte, além de dois personagens do filme que se chamam Gaspar e outro Noé.

Ao mesmo tempo, Gaspar usa elementos interessantíssimos em sua obra como os cortes dos planos que duram o que poderia ser classificado como o piscar de um olho. Estes cortes acontecem na maior parte no meio de planos-sequências, sendo totalmente desnecessários, mas que acabam se infiltrando entre os que acontecem em cortes de cena, causando uma certa sensação onírica. Para um filme cuja narrativa se baseia em memórias, a escolha é bem interessante. A fotografia, devo admitir, é uma das mais belas que vi este ano, com perfeitos enquadramentos e a paleta de cor clássica de Noé, que mistura vermelho, amarelo e verde. O diretor, porém, acrescenta belas cenas externas em Paris, que até chegam a criar um ar romântico e realístico no meio dessa jornada quase absurda.

Sobre o 3D, não tive a oportunidade de experimentar, mas pelo o que observei, é totalmente desnecessário, tendo uma cena ou outra que seria interessante assistir com tal efeito - como quando Murphy literalmente goza em frente à câmera. Ainda assim, a escolha do diretor chega a ser no mínimo atrevida por querer fazer com que o público sinta a sensação de que sêmem está sendo jogado na platéia. Por ser Gaspar Noé, não espero menos do diretor ao assistir a seus filmes e aprecio sua audácia.

Talvez Love não seja um filme para todos. Se você não gostou de suas outras obras, não vejo porque gostará de Love - aliás, Gaspar Noé pega todas suas características mais excêntricas e coloca neste filme onde a linha entre o que levar e o que não levar a sério é extremamente tênue. A escolha, porém, é sua.

Comentários (15)

Nilmar Souza | terça-feira, 24 de Novembro de 2015 - 23:11

Os cara apela

Cristian Oliveira Bruno | quarta-feira, 25 de Novembro de 2015 - 05:24

Cara...gosto do Trier. Mesmo. Suas obras pré-Anticristo/Ninfomaníaca são muito boas, mas gênio? Menos....bem menimis, gurizada. Bom diretor. Nada mais nem nada demais. Noé? Um bostinha metido a inovador fazendo o que outros já fizeram, sem a mesma qualidade. Não perdi meu tempo com esse. Vou esperar pra ver na tv ou em DVD e esperar ter um sexo explícito ao menos. kkk

Josiel Oliveira | quarta-feira, 25 de Novembro de 2015 - 15:27

Kkkkkkkkkk aí apelei né... mas eu sou muito fã do Von Trier mesmo, acho que é um cara pra ser estudado não apenas não área do Cinema, como também na Filosofia, na Antropologia, por isso o "transcende o cinema". hehe
Quanto ao Love, o Gaspar Noé me lembrou o Vincent Gallo, que teve a moral de dirigir um filme com uma cena em que a atriz fica quase 5 minutos fazendo boquete nele. Muito mala, pelamor.

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