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Pior Pessoa do Mundo, A

(Verdens verste menneske, 2021)
7,7
Média
41 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Interruptores e trinta e poucos anos

8,5

O novo filme de Joachim Trier parece iniciar como uma tradicional comédia dramática sobre relacionamentos amorosos. Nada no primeiro ato do filme sugere algo diferente. Contudo, vemos emergir numa gradação balanceada a já conhecida profundidade reflexiva e filosófica dos filmes escandinavos, – vale aqui lembrar do premiado  Druk: Mais uma Rodada (2020). A Pior Pessoa do Mundo (2021) ganhou o prêmio de melhor interpretação feminina para Renate Reinsve no Festival de Cannes, em 2021, melhor filme estrangeiro no New York Film Critics Circle Awards e melhor ator coadjuvante para Anders Danielsen Lie no National Society of Film Critics Award.  

O filme completa a trilogia com Reprise (2006) e Oslo, August 31st (2011) e é dividido em um prólogo, 12 capítulos e um epílogo sobre a vida e o amadurecimento pessoal, amoroso e profissional da jovem Julie (Renate Reinsve) na cidade de Oslo. Chegando na casa dos trinta anos, a protagonista sente o agravamento das cobranças sociais e pessoais sobre o que deve exercer profissionalmente, tendo mudado diversas vezes de área. Sua indecisão profissional faz com que desconsidere a ideia de ter filhos, ainda que esse assunto a acompanhe nas relações amorosas e conversas. 

Na verdade, as dúvidas de Julie refletem a sua descrença em si. Sua resistência na profissão ou na maternidade dizem muito sobre as inquietações de uma geração de mulheres. Ainda que a trama se concentre nos altos e baixos da vida amorosas da protagonista, o que percebemos é o constante desconforto dela consigo mesma, com o seu lugar nas relações e no mundo enquanto o tempo avança. Esses processos são muitas vezes demonstrados em situações corriqueiras através de planos médios com a câmera na mão em ritmo vagaroso. Ocorrem, assim, diversos instantes de contemplação de paisagens e observação pensativa durante os encontros com amigos e familiares nos quais Julie parece olhar sua vida de fora, – sem a sua presença.  

Outros exemplos são revelados a partir das relações amorosas da Julie. Amor e trabalho dialogam sem que emerja disso qualquer repostas para a protagonista. Seu relacionamento com Aksel (Anders Danielsen Lie), por exemplo, é pautado pelos desencontros de idades, interesses (ele quer filhos, ela não) e diálogo (ele racionaliza, ela sente). Embora aparentem uma relação agradável, há durante suas conversas profundas imersões de ambos (vale aqui um elogio ao polido roteiro assinado por Joachim Trier e Eskil Vogt), bem como o desencontro e a insatisfação da Julie que defende suas vontades e anseios profissionais de maneira frágil e cambaleante. A relação a toma, uma vez que deposita nela a sua necessidade de afirmação e confusão pessoal. 

Numa segunda relação com Eivind (Herbert Nordrum), Julie parece inicialmente despertar de um torpor. Ele é jovem e bonito, também não quer filhos, vivem num ritmo leve. Contudo, a protagonista prossegue sentindo a sua confusão interna. Parece deslocada do grupo de amigos que rodeia o casal e reage mal a qualquer comentário sobre o seus potenciais e trabalhos.  

Para indicar esses elementos psicológicos, o filme apresenta uma narração na primeira pessoa (voz feminina), com pontuais recursos poéticos e de onisciência. Sendo Julie uma entusiasta da escrita, dentre as demais atividades que investe interesse, muitos trechos da narração falam sobre sentimentos, angustias, apontamentos que detalham a trama e sugerem uma semelhança autoral com os diversos manuscritos elaborados pela protagonista. 

Os elementos líricos também emergem de algumas cenas, como o recurso do slow motion, principalmente na cena de Julie e Eivind na festa, e da lindíssima cena em plano aberto da protagonista cruzando as ruas de Oslo atrás de Eivind enquanto, após apertar o interruptor de luz, o mundo e todos ao redor parecem imóveis. A fotografia, por sua vez, aproveita os tons frios, naturais e subexpostos, favorecendo uma atmosfera intimista e sensível que dialoga com a câmera de movimento suave e uma estética de cadência reflexiva e existencial. 

A Pior Pessoa do Mundo entitula o sentimento de Julie sobre si. O mundo nada lhe responde e ela parece nada conseguir falar no mundo. Rodeada por homens e familiares que não lhe auxiliam a compreender o seu valor, embora assim erroneamente espere, Julie é uma mulher que diversas vezes tenta e falha na busca pela pessoa que gostaria de ser. Ao longo de começos e términos dos ciclos de uma vida normal em Oslo, e depois de longas pausas para os seus próprios pensamentos, Julie parece não encontrar muitas repostas, mas sim por onde deve começar a sua busca.

Comentários (2)

Igor Guimarães Vasconcellos | quarta-feira, 23 de Março de 2022 - 14:31

Junto com Drive my Car é o que há de melhor no Oscar desse ano.
Lindo texto. Esse sentimento de desconforto vivido pela protagonista foi muito bem traduzido

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 24 de Março de 2022 - 14:25

Ótimo texto. Aponta o direcionamento do material através de técnica e temática através do desconforto vendido. Aí sim.

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