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Críticas

Cineplayers

Esquisito, porém curioso.

4,0
Steven Knight fez primeiro seu nome como roteirista em Hollywood, assinando filmes como Coisas Belas e Sujas e Senhores do Crime, além de, mais recentemente, Millenium - A Garota na Teia de Aranha. Em 2013, se lançou como diretor com Locke, filme estrelado por Tom Hardy (Venom) e com o diferencial de se passar inteiramente dentro de um carro, onde o protagonista só interagia com o mundo através do celular. Também trabalha na televisão, sendo criador da série Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas, drama de máfia passado na Inglaterra no início do século 20.

Agora, em Calmaria, seu terceiro longa, o diretor arrisca uma empreitada neo-noir contando a história de Baker Dill (Mathew McConaughey), um pescador obcecado em capturar o maior atum que existe nas redondezas da ilha até o dia em que é visitado por sua ex-mulher e mãe de seu filho Karen Zariakas (Anne Hathaway), que pede a ele que mate seu novo marido, o alcoólatra abusivo Frank (Jason Clarke), pois teme que a fúria do mesmo se volte contra o garoto. Ao mesmo tempo, Baker é perseguido por Reid Miller (Jeremy Strong), um misterioso executivo de uma companhia de pesca.  

Enquanto cinema, Calmaria é uma bagunça. Ao mesmo tempo que trabalha com personagens traumatizados pelo passado a ponto de tomar atitudes extremas, há um plot twist pela metade do filme que faz o filme tomar outro rumo e, de repente, a ambientação de filme policial é dispensada por uma sucessão de reviravoltas metalinguísticas que acabam esvaziando um tanto o filme e tornando um tanto incompreensível a razão de continuar a primeira história se a reviravolta já modificou tudo.

As atuações são administradas de maneira um tanto confusa também: McConaughey e Hathaway defendem os personagens com dignidade shakespereana, mas enquanto isso, Strong e Clarke parecem ter entendido muito mais a proposta do filme, atuando de maneira exagerada à beira da caricatura e não forçadamente dramática. A maldade representada por Clarke e ambiguidade performada por Strong não conversam em nada com os outros 

E para além de tudo, o maior problema é que com seu tom realista em um filme que dissolve o realismo, McConaughey é o protagonista, quem leva o filme nas costas e, no meio da bagunça tonal, conseguimos prever o que vai acontecer narrativamente mas não sabemos o que esperar em matéria de construção, com o filme se ancorando em mil e um didatismos para garantir que o espectador consiga seguir o que é proposto.

Com a encenação emprestada dos melhores noir logo se transferindo para um filme ancorado em efeitos visuais, Calmaria é um filme que não conversa consigo mesmo, leva a história aos trancos e barrancos em uma tour de force para conseguir terminar, estendendo-se desnecessariamente em uma história que, caso revelasse sua surpresa no final ou deixasse o espectador a par desde o início, talvez tivesse um efeito catártico mais psicologicamente contundente. 

Ainda assim, mesmo que todo desconjuntando, falando com vários gêneros ao mesmo tempo, fazendo uma caricatura séria, o filme em algum nível fica não interessante, mas curioso de se assistir, pois a busca pela originalidade enfraquece todo o trabalho com os dispositivos narrativos e o que temos é um filme que quer abraçar o mundo mas que a todo momento mastiga mais do que consegue engolir, e o resultado é uma bagunça que só vendo para entender. 

Comentários (1)

Paulo Faria Esteves | domingo, 03 de Março de 2019 - 16:42 | Responder

Uma pena a nota baixa. Fui ver este filme esperando uma espécie de Triângulo do Medo...e realmente não foi isso, nem foi tão bom. Mas foi misterioso o suficiente para me intrigar e achei que os atores defenderam bem os seus papéis. Além de que não deve ser um filme fácil de eu esquecer. Não chega à qualidade do Triângulo, mas é bacana.

Mas sim, o filme é esquisito. Na minha opinião, as usual...

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