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Conquista do Planeta dos Macacos, A

(Conquest of the Planet of the Apes, 1972)
6,6
Média
68 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A conquista antiescravagista preta no Planeta dos Macacos branco

10,0
“O brilhantismo nunca foi incentivado entre escravos”
Caesar

Terceira sequência da obra-prima de 1968, que parte para um caminho frontal – brancamente – e radical ao tratar da revolução dos macacos frente aos humanos escrotos. Diante desta questão temos uma abordagem polêmica duplamente. Primeiro por tratar da escravidão negra remetendo ao passado escravagista norte-americano em plenos anos 70; segundo, por comparar macacos e negros neste modus operandi. Pode despertar debates invocados. E a minha intenção é aprofundar a questão com o tesão de rebolar lenha na fogueira.

Após o final surpreendente da terceira parte, temos agora o chimpanzé autodeclarado Caesar, filho de Cornelius e Zira, também altamente inteligente, passando a se perguntar – e se revoltar – questionando "Que porra de escravidão é esta para com os símios?" Ele os entende como companheiros, mesmo sendo criado tanto quanto humano na intimidade. A partir disso o filme visa a questionar o autoritarismo humano perante aquilo que o cerca, principalmente quando encontra mão-de-obra barata via escravatura.

De cara, uma trilha sonora urgente que se encaixa com a proposta narrativa extrema diante dum clima absolutamente tétrico tal qual um quebra-cabeças diabólico de cores. Estas últimas dão o tom dos uniformes dos primatas tipificados – separados por subraças, em que temos chimpanzés de verde, orangotangos de azul e gorilas de vermelho, algo, certa feita, já recorrente no filme original; e aqui é mostrada a origem desse separatismo, como uma herança organizacional maldita, e na forma conforme a imagem capta aquele ambiente. Extenso cuidado com os planos por conta da carpintaria do J. Lee Thompson, que tencionava captar expressões viscerais na composição dos seus personagens. Numa teimosia em mostrar como vai se sentindo Caesar em sua transformação de revoltado a revolucionário. Na base da porrada. Esteticamente, monta um tesão humano pela disciplina oprimente que os lugares visam possuir. O uso do contra-plongée nas criaturas humanas demonstra óbvia declaração de poder pela imagem, enquanto os primatas seriam subalternizados tanto pela estória – excetuando-se Caesar – quanto pela fotografia. Por enquanto. Isto mudaria no decorrer da fita, à medida que os macacos crescessem num revolucionamento a ser armado.

Proibida a aglomeração dos macacos. O estado demonstra poder, tal qual uma governança prepotente amassando a existência de supostas oposições a si. Algo usual e chavão destes sistemas. Coibir o ajuntamento. Organização militar e altamente metódica que relembra propositalmente o nazifascismo em seu visual disciplinado. Rigidez total. Quaisquer protestos contra o governo são contidos na base da chiba. As figuras deste são paramentadas de preto, mantendo o tom autoritário que o clima expõe, com a rigidez imbricada. A ordem e a disciplina. Sci-fi semi-distópico sobre os fascistóides. O filme é vinculado visualmente à doutrina nazifascista – e várias outras autoritárias – por meio dos escrotos no controle e, assim, a critica. Enfim Caesar fica entre os seus quando adentra à vera num campo de condicionamento e tortura psicológica, mental e física. Campo de concentração ou senzala modernosa? Preso. Controle absoluto. Fogo como elemento destroçador e estimulador dum medo cruel em busca da manutenção de controle. Onde já vimos isso? Nos campos nazistas? Nas senzalas? As chamas porquanto algo sintomático dos contrários ao fogaréu no final. Em breve o fogo contra os usurpadores. Por enquanto ele era o terror dos primatas presos. O fogo roubado.

Roddy McDowall no papel do Caesar, transmite a fascinação e o desespero necessários que se transformam gradualmente em ódio. Os olhos dele falam. Não poderia revelar sua condição frente aos humanos. Um ser de casta considerada inferior que raciocina e contesta não seria tolerado. Lembra alguma coisa? Por isso ele percorre num enganador silêncio na caminhada à liderança duma turma que necessitava ser resgatada, e nada melhor que um resgate também de si por algum dos seus. Surpresa e desgraça continuam. Macacos organizados propositalmente como bandos amestrados de trabalhadores escravos braçais (uma redundância teimosa minha), na intenção eterna da manutenção pela obediência. Condicionamento pela extrema repetição, e, quando há erros, haja porrada. Vendas escravas. Os negros nos mercados escravagistas centenas de anos atrás. Minha nossa, que grosseria, meu rapaz. Comparar filme setentista com a escravidão? Como um historiador faz uma coisa dessas, seu imoral? Fazendo. O campo das permanências históricas é ajustado através do cinema como forma expressionista sobre tema espinhoso, e num período ácido. A alegoria da branquitude sobre a desgraça alheia.

O ódio crescente de César acaba por ter mais um grau de proeminência pela morte do branco que o criara. É a cereja do bolo a provocar sua revolta crescente desde quando entrara no centro de remanejamento e das atrocidades que presenciara. Como se o fato da escravidão não fosse o suficiente a revoltá-lo. Faltou este empurrão sentimental maroto, de cunho pessoal, que era o último freio para sua comandância política na insurreição. Daqui para frente o ódio o alimentaria, e traria a fome necessária a jeito de detonar os grilhões que o massacravam.

“Juramos destruir os brancos e tudo que possuem; que morramos se falharmos nesta promessa”

Ódio e revolução. A resposta vem com revolta e inteligência via insurreição como ameaça à humanidade. A percepção de Caesar em relação aos semelhantes. Se visualmente o filme tem pegada crítica ao nazifascismo, no campo narrativo temático (como já citei antes), em sua gênese, a obra encampa dramaticamente o discurso antiescravagista nos remetendo à escravização negra no além-Atlântico na idade conhecida e oficialmente alcunhada de Moderna. A exploração de mão de obra na fita é prova. A produção persiste numa amálgama crítica de variados regimes despóticos, mas sua gênese evidencia um trato claro e grosseiro acerca da escravidão negra das Américas. Estes senhores de escravos não são lá considerados em demasiado autoritários por muitos de seus semelhantes. Claro.

Carregando-lhes pela História. Qualquer pequena arrogância minha. Como todo procedimento insurrecionário que se preze, o líder inimigo – ou alguns deles – é executado publicamente. Caesar faz isso. A sinalização efetiva duma mudança de direção e comando. Fase mais radical da Revolução Francesa, Revolução Russa. Etc. A versão original desse filme pressupunha isto. A morte do chefe branco a mando do Caesar. Fora modificada após a primeira exibição teste pelos produtores pelo tamanho do impacto da coisa. Essa primeira foi devidamente lançada tempos depois, e é objeto dessa minha análise. Dito isto, de fato, a minha comparação vai além dos movimentos citados.

General Toussaint Louverture (1743 — 1803). Artista Desconhecido. (New York Public Library)

Houveram processos revolucionários brancos sem escravagismo, bom lembrar, mas parto para um desenvolvimento cruel de destruição da carne negra no Caribe. Com certo líder foda usando da força, selvajaria e estratégia para vencer. Caesar é uma junção dos mais variados líderes revoltosos brancos que cometeram o ato de destroçar chefias anteriores. Mas há um maioral negro – que escravo também fora, como Caesar - de alta proeminência que encaixo arbitrariamente no meu discurso aqui. Devido à minha grande cara de pau e falta de caráter tácita, relaciono o filme com o findar da escravidão do Haiti – São Domingos à época, nomenclatura enquanto colônia francesa. De Caesar a Toussaint Louverture, ex-escravo educado e inteligente que seguiu na liderança pelo fim da tortura haitiana. Contra o jugo de sua metrópole francesa e doutros tantos povos a explorá-los, como ingleses e espanhóis. Nada melhor do que explicitar o maior levante de escravos negros das Américas contra os miseráveis que lhes escravizavam.

A minha escolha comparativa adentra na seara tanto do esquecimento brutal da luta negra haitiana quanto na plena consciência do cometimento dum anacronismo atroz. A intenção é dar espaço a uma experiência histórica absolutamente importante como usufruto de um discurso crítica acerca do colonialismo e suas chagas - e que pouco é lembrada, diga-se de passagem. Por isso cunho o termo arbitrário acima. A grosseria crítica. Nem que seja na base de um anacronismo provocador e deveras útil. Não preciso explicar que mesmo com as similitudes que vou apontar, os períodos históricos - na narrativa diegética, da produção da obra e do acontecimento histórico - são díspares em termos de sociedade e política. Mas é nisso mesmo que o filme se encaixa, e é por isso que uso do termo "PROVOCAÇÃO" pra escapar, já que sou gaiato. A produção usa do sci-fi modernoso pra falar de escravidão pela visão dos brancos. Com comparações grosseiras e caricaturais, porém absolutamente úteis.

Nada na História é simples. De uma forma ou de outra, algum sangue será derramado. O Haiti fora o primeiro país a abolir a escravização negra. Toussaint L’Ouverture (Toussaint Bréda, 1743-1803) foi a liderança proposta, que não concretizou a independência, mas a desenvolveu e plantou o tesão pela liberdade em sua galera quando acabou com o esquema escravagista. Nasceu escravo e liberto fora aos 33 anos. Tivera acesso a estudos. Seu senhor de escravos, na percepção da sagacidade daquela criança, tanto quanto seu pai assim o era, permitiu a ele a educação a que seus companheiros jamais tiveram acesso. Caesar similarmente. Sagaz. No caso do Caesar, ele era dotado duma inteligência que seus companheiros não tinham tido oportunidade de desenvolver. Os líderes teriam grande vulto. Ao contrário do cinema, a História é mais complexa.

Escravos trabalhando nas plantações de cana-de-açúcar em São Domingo, antigo Haiti.

O Haiti já entrara na revolta em 1791, pelos mais variados motivos – desde crescimento de maus tratos; cansaço do exaustivo trabalho e tortura; e a influência da Revolução Francesa, a qual emputeceu os colonos a agitou os escravos. Ou seja, o levante negro já estava acontecendo quando Toussaint entrara na pista em 1794. Era o organizador e mentor oficial necessário para levar aqueles homens e mulheres à vitória. E vem o cinema. A partir do processo insurgente, os primatas teriam consciência de si para se livrarem da escravidão. História. O acesso às leituras de materiais sobre colonização. Desperta a discussão em Toussaint também. Principalmente no que tange ao entendimento dos conflitos e guerras nalgumas de suas leituras. Caesar sente na pele a questão quando vê seu povo sofrer somado ao tratamento que é obrigado a passar. Adquire experiência tanto com as leituras e costumes brancos como com os problemas dos seus companheiros símios escravos. E o haitiano, parecidamente, compreendeu que conhecimento é poder, e, como tal, poder-se-ia ser a chave para seu crescimento enquanto dirigente nas frentes de batalha na libertação dos seus camaradas.

Escravos no Haiti. 500 mil escravos. Situação de tortura, destroço e extermínio. Tudo por mão de obra barata para comercialização do açúcar. Quer um exemplo? “Os mais indisciplinados sofriam o castigo de serem enterrados de pé, apenas com a cabeça de fora. Assim imobilizados, acabavam mortos depois de sofrer a horrível tortura de ter o rosto lentamente devorado pelos insetos e abutres.”  Aqui o discurso do historiador e cientista social branco Jacob Gorender em sua resenha “O Épico e o Trágico na história do Haiti”, que analisa brevemente o trabalho do igualmente branco e historiador C.R.L. James na sua obra “Jacobinos Negros”. Nela, James identicamente merece citação quando expõe o desejo dos escravos em resposta à atrocidade de sua sobrevivência. Ele afirma sobre versos duma canção escrava proferida pelos próprios em cerimônias vodu no Haiti: “Juramos destruir os brancos e tudo que possuem; que morramos se falharmos nesta promessa”. Alguém há de afirmar que estes versos não eram nada menos que justos? Escravocracia. Escravocrata. Escravagismo. Escravismo. Escravatura. Esclavagismo. Escravagista. Escravização. Escravo. Escrava.

Revolução escrava haitiana. Combate contra os colonizadores franceses. From Histoire de Napoléon, by M. De Norvins, 1839

Toussaint ganhara ascendência entre os companheiros e organizara exército de milhares de negros e mulatos em 1794, conseguindo derrotar franceses, ingleses e espanhóis, assim prosseguindo por mais vitórias e libertando o norte da colônia francesa e assim findando a escravidão naquele território inteiro. Fora caçado e preso em 1802 pelo exército napoleônico. Morto prisioneiro na França. Seus companheiros tomaram conta da luta e, por fim, expulsaram franceses e proclamam a independência haitiana no 1º de janeiro de 1804. A semente havia sido plantada. Caesar fora o figura a afirmar que sua vitória inspiraria outros tantos. Por isso este filme tem um puta poder. A película, mesmo sabendo de toda a visão problemática incitada em suas comparações chamadas racistas, acaba por afirmar que o verdadeiro esquema insurrecionário vem de dentro. E não dum paternalismo senhorial assinando papel de soltura. A liberdade é bem inalienável. Caesar sabia disso desde o nascedouro, mas realmente aprendeu o que é ser livre quando suou sangue com seus companheiros escravos, tal qual Toussaint L’Ouverture quando defendia sua vida contra colonialistas escrotos.

Toussaint. Caesar. Haiti. Escravidão. Humanos. Macacos. Pretos. Brancos. A escolha que fiz nesta assertiva comparatória foi imediatamente pela revolução interna. Proveniente dos explorados. O pensamento europeu coordenava seus esforços para manter os colonizados como tais, inclusive na gênese de pensamento. Basta verificar a literatura do continente no século XIX, que, quando tratava da questão, abordava que a inferioridade do colonizado era a justificativa da incapacidade de se libertar. Como se não existisse opção de levante algum. Joseph Conrad não me deixa mentir. O escritor do século citado corrobora meu discurso em sua principal e fantástica criação “Coração das Trevas”, na qual afirma que a libertação dos cativos só ocorreria por ineficiência da metrópole. Não só na literatura isto ocorria, mas nas ciências isso era de grande vulto. A História que o diga. Isto ocorria consciente e inconscientemente, exatamente por ser uma linha amplamente divulgada e respeitada. Ou seja, a caminhada do progressismo, mesmo crítico, ainda carregava em suas frentes a pecha de suposta superioridade do europeu brancoso.

Um filme sobre macacos escravos, e relacionando-os com a escravaria negra e o racismo, torna o material racista? A visão do homem branco sobre a escravidão é terceirizada, à distância do racismo enquanto devir de sofrimento pessoal. Ou seja, não sabe porra nenhuma na pele o que é racismo. O radicalismo de expor um tema da envergadura do desastre inominável que fora séculos de servidão negra só teria espaço através das alegorias. Tanto na cabeça do branco produtor de conteúdo, quanto do branco espectador, não preparado a aceitar a guerra ancestral capitaneada por brancos, seja assim chamada. E as relações são sebosas. Ainda mais por serem grosseiras e racistas. Ora. O termo macaco usado para definir o negro é de absoluto acinte. Racismo do mais sujo. Porém, não houve cerimônia ao vincular o mesmo nesta produção para se debater a gigantesca chaga interiorizada pelo próprio. Talvez por isso mesmo haja certo personagem negro que debate com Caesar sobre estas questões. Uma forma não só de amenizar a forma racista da discussão, mas em proveito de corroborar a crítica. O pensamento do homem branco – eu incluso – nunca será idiossincrático à maneira que o negro consegue expressar. Somos um apoio e temos a obrigação de lutar, todavia, o sofrimento não é nosso. Não seres a sentir na marra strictu sensu, contudo, como humanos mediante o desastre. A intenção deste filme não era ser obviamente racista, mas o de usar deste artifício para se explicitar o assunto. Assim como eu aqui assim o faço, com absoluta consciência da comparação e devido ao distanciamento histórico que o tempo assim me permite. Sem passar pano para as escolhas de outrora. E nem para as minhas.

“Nós não podemos ser livres até conseguirmos o poder”

O simbolismo do destroço. A força policial desfila e se interpõe frente aos revolucionários. Desde o princípio da fita que esta força violenta age sob a batuta da truculência estatal, e agora recebe seu revés. Chibata no autoritarismo, que mostrara que um governo fascistóide só sai na base da porrada. Era o caminho corajoso escolhido para a série até o momento. O mais ousado, com toda certeza. Além da revolução haitiana que inventei de comparar, tem algumas conurbações mais claras. E outras consequências. Feito dentro duma década a buscar a abertura dos direitos dos negros, após a mortes de líderes totalmente importantes, geniais e sagazes tais quais Martin Luther King Jr. e Malcolm X, que foram executados por conta de suas lutas. Os direitos civis. Sem contar a guerra do Vietnã a crescer e mandar negros aos milhares como buchas de canhão para o front de batalha. Pela vitória do maior nada da história ocidental. Como em fita outra, anos depois, afirmara Hubert de Marais (personagem de Christian Marquand), chefe da família francesa, em cena cortada e a posteriori restaurada, no absurdo filmaço Apocalypse Now Redux (1979) de Francis Ford Coppola, ensina que aquele conflito é absolutamente inútil, uma constatação demagoga dum colonialista a outro. Branco colonizador de chorume com um outro. É neste cerco ideológico que A Conquista do Planeta dos Macacos (Conquest of the Planet of the Apes, 1972) é produzido e lançado. Mas o seu impacto foi não de libelo antiescravagista, antinazista e o escambau, e, sim, de outra nova sequência de uma saga altamente interessante que estava se findando. Se perdendo no tempo.

Por que escolhi este filme? Existem fitas e movimentos cinematográficos outros que delineiam o tema de maneiras mais satisfatórias, objetivas e com experiências empíricas envolvidas? Claro que sim. O esquema blaxploitation é um, o cinema africano crescendo logo na gênese em fins, ainda, de processos colonizatórios naquela década. Etc. Mas este é branco. Feito, produzido e protagonizado por eles, com os vícios intrínsecos de seus debates, com visão racialista difusa, que aqui encontra espaço para se sustentar. Se for para me sustentar na conversa do "lugar de fala", daqui falo altamente confortável, porém cínico e vagabundo, como um historiador em escrutínio deve ser.

O material acaba sendo surpreendente pela honestidade, e por sua dura estética sombria afirmando o branco como um escroto e culpabilizando-o frontalmente pelo mal da escravidão. Mas utiliza-se do artifício nazifascista para mostrar que somente um radicalismo tal qual este seria capaz de criar o estrondo da retirada de liberdade do outro via estraçalho das gentes. Quando se verifica e estuda a compulsória submissão negra das Américas, o branco é visto como? Como fruto dum sistema. De sua época. Com alto teor condescendente para com ele. O nazista é destroçado de cara, mas a colonização do Atlântico também não trazia um estupro total dos povos negros? Desde a retirada da cultura africana, num avacalho completo da ancestralidade tão cara; disso temos pretos e pretas sendo desovados no mar durante a travessia África-Américas por conta duma condição desumana da viagem; então chega nos novos continentes onde são sumária – e continuamente – explorados até o fim de sua existência. Se isso não é uma destruição total dum povo, eu não sei o que é. Mete-se o termo holocausto? Não se precisa aderir ao radicalismo escroto na essência do mal nazista para se justificar a persistência da escravidão (como o filme faz), porém entender que a normalização dada a esta questão americana é existente, e cabe aos teimosos debatê-la. Quando o morticínio é proeminentemente preto, por que totalitário não seria? O radicalismo e desespero acerca do nazismo vieram porque foram mortes brancas então?

E o lance da destruição total? Citá-lo-ei novamente. O termo totalitarismo entra na discussão a contento, principalmente quando ele é claramente vinculado ao nazismo e não a outros regimes com tanta veemência. É uma questão semântico-metodológica ou um sequestro da palavra e significado? É usado dentro duma esfera de construção histórica para um regime de dominação completa, como no nazismo explicitamente citado. Mas o que falaremos dos povos negros que tiveram sua estrutura desmontada e metamorfoseada em colônias para o enriquecimento europeu e na ampla destruição total (aquela repetição marota de termos dentro de um mesmo pensamento que eu bem curto, para manter a memória mais vívida) de povos. O que é o total? A ideia nazista de abarcar fisicamente os povos e deles tomar de conta ao impor a raça ariana. Mas e a ideia de usar a submissão negra por vários séculos? Isto para mim é totalidade. E da escrota.

Temos alguns faladores mestres geniais do tema. Como o poeta negro Aimé Césaire no livro “Discurso sobre Colonialismo” (1955), que descortina a colonização sobre os africanos diante da perspectiva do branco diminuir sua dominação quando a compara com o nazismo, pra citar um dos temas. Aquelas não seriam figurações de instituições totais de extermínio? O procedimento de mão de obra acabava com os povos. Os brutalizava. Sobre o crasso cinismo ocidental nas suas próprias fuleiragens, num comprometimento para propor o nazismo como pior chaga e raiz de trevas únicas, Aimé debochadamente propõe:  

As pessoas espantam-se, indignam-se. Dizem: <<com é curioso! É o nazismo, isso passa! >> E aguardam, e esperam; e calam em si próprias a verdade – que é uma barbárie suprema, a que coroa, a que resume a quotidianidade das barbáries; que é o nazismo, antes de o sofrer, absolveram-no, fecharam-lhe os olhos, legitimaram-no, porque até aí só se tinha aplicado a povos não europeus; que o cultivaram, são responsáveis por ele, e que ele brota, rompe, goteja, antes de submergir nas suas águas avermelhadas de todas as fissuras da civilização ocidental e cristã. (CÉSAIRE. 1955. Pág. 18).

Por isso que esta fita é foda na incitação. De como o branco precisa radicalizar algozes próprios para explicitar determinada vilania diante da hecatombe escravagista. Como se mesmo querendo tacar o pau no comentário só sentisse que seria efetivo se pusesse um vínculo nazistoide. Além do questionamento do verniz recebido pelo público, o problema aqui é o colonialismo não resolvido. Césaire teima nisso quando afirma que o ocidente capitalista não conseguiu resolver seus dois principais problemas: o proletariado e o colonialismo. Problemas que ele próprio criara e que para explicitá-los a contento, necessitar-se-ia dum esquema de exagero. O filme acaba por funcionar nesta análise e na forma como pune os brancosos. Uma visão branca da coisa, porém com um teor de brutalidade que não poderia ser manifestada de outra forma que não vinculada a um regime de exceção.

Aimé Césaire e sua obra Discurso sobre Colonialismo (1955) 1964. (Getty)

O filme mantém o padrão de afirmar o exagero completo para justiçar o destroço, e acerta grossamente na revolução, por olhos brancos. A minha provocação vem neste sentido. Sob a perspectiva dos artífices brancos do cinema aqui escrutinados por mim, um cineasta e historiador similarmente branco. Não é um simulacro de isenção, mas uma percepção externa com mínima consciência branca de classe. Ora, é mais um branco azedo para analisar táticas progressistas de outros tantos dos seus.

O movimento final. Juntando armas. Usando do trabalho forçado contra os patrões ricos. A liderança do Caesar como presença onipotente no cerne da ação. Agora a câmera começa a mostrar a diferença de tratamento quando os contraplongées chegam nele. O enaltecimento do mito. A narrativa de sua chefia e a devastação invocada e brutal no ataque dos Chimpanzés, Orangotangos e Gorilas. Sem subterfúgios ou pormenores. O caminho é pela pancadaria. Revolução. Anarquia e desordem. A obra mostra que somente através da organização coletiva e – por que não? – da violência, um governo opressor pode ser massacrado e tirado do poder. Na hora do pau, não se exigem flores, mas, sim ferocidade. A luta é contra escravidão, cacete. Toussaint L’Ouverture alisou quando se uniu a seus companheiros para o pau? Não. E nem Caesar. Ambos usaram do seu poder de persuasão, comando e genialidade a guiar seus chapas à vitória. No respiro da liberdade. É uma mensagem radical num contexto escroto que deve ser metamorfoseada para a atual compreensão? Por isso a fita mantém-se ainda com força.

Uma insurreição física e simbólica. Cacofonia esculachatória. Tanto em imagem (escolha das cores fortes, principalmente sobre vermelho sangue e na escolha dos planos com um tom de escuridão presente por trás dos primatas e nos seus cortes secos em conflitos armados), quanto som – na zuada dos gritos, rugidos e quebradeira do processo insurreto violento e na trilha em alto tom. Com planos abertos e de conjunto a explicitar a crescente revolta perpetrada pelos macacos sob a tutela dos contra-plongées sobre Caesar, entrecortando com os mesmos planos anteriores dele cercado de seus companheiros de causa. A funcionalidade da metodologia audiovisual em mostrar a operação instalada na tomada do poder. Dentro duma questão visceralmente simbólica, se me permitem esta dialética marota. Preocupado com o resultado num conceito narrativo simples diante dum contexto de escolha estarrecedora. Andamento ligeiro, mas extremamente endurecido pela dor e pela luta. Processo de ampla aspereza, mesmo que tenha sido conduzido e montado perante um ensejo de descendente do colonizador. Por mais absolutamente escroto que isto seja.

Um mestre vindo de baixo. Brutalmente pertencente à causa. A bagaceira unida a esbagaçar o ditador Breck. Este afirma antes de ser massacrado que os macacos são escravizados por os humanos odiarem a si mesmos naquilo que enxergam nos símios. Uma imposição fajuta – e gigantescamente racista – do colonizador quando precisa inventar alguma marmota para justificar suas escolhas destrutivas que, agora derrotado, quer meter fedor de vitimismo supostamente consequenciado. Por isso existe o final apoteótico e apocalíptico. O fogo. O discurso final dos oprimidos que sobrepujaram os opressores. A queda inevitável do homem no esplendor símio com sua liberdade conseguida na marra.

Reiterando. É possível estabelecer uma relação imagética clara dos vilanescos com o nazismo tanto quanto a existência duma figuração mais comprida e marota com revoluções escravas, tal qual a do Haiti. A tentativa é estabelecer a escravidão como execrável, mas ainda amarrada pelo pensamento civilizatório eurocêntrico, que só consegue encontrar vazão e tamanho por conta de seu final escroto e pela justificativa encaminhada na série. É material com consciência de si (para o bem e mal) a permitir um debate acalorado daquilo que é ou não a existência duma instituição de assassínio total. Não precisamos somente do exemplo nazista para tal, mas a intenção de impor que o colonizador é tão imundo quanto um nazi, como a fita promulga, é algo a se ressaltar. E já que é uma arma que temos em mãos no debate, que seja uma daquelas a ser imprimidas no estraçalhar de uma permanência histórica a ser escrachada como é o pensamento colonizatório.

Texto integrante do especial Cinemas Negros

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