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Licorice Pizza

(Licorice Pizza, 2021)
7,5
Média
80 votos
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Críticas

Cineplayers

Sem rumo em Los Angeles

9,5

Paul Thomas Anderson gosta de trabalhar com personagens impossíveis. Esse tipo é diferente do personagem difícil, protagonistas antipáticos com ambiguidade moral como Dirk Diggler (Mark Wahlberg), a estrela de Boogie Nights (idem, 1997), que tem uma jornada bem definida para se deixar conhecer pelo espectador. O personagem impossível não tem esse percurso, todas as pontes de identificação entre ele e um espectador imaginado são implodidas, eles não tem passado ou futuro, são incompreendidos porque se recusam a articular algo que com que possa se fazer entender. Esses são os protagonistas dos filmes de Anderson a partir de Embriagados de Amor (Punch-Drunk Love, 2002).

Mesmo para os personagens impossíveis há dois caminhos muito distintos no cinema de Anderson: o percorrido por figuras asquerosas, violentas, sem qualquer possibilidade de rendenção, que se privilegiam de uma distribuição desigual de poder, como em Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) e O Mestre (The Master, 2012); e o mais frequentemente ensolarado, de personagens apáticos, pouco violentos (ou incapazes de dirigir a violência ao outro), que não se redimem apenas porque os parâmetros da redenção, e da aceitação, não fazem sentido para eles. Esses do segundo tipo vagam por situações sem rumo, sofrendo com uma dificuldade de comunicação, de relatar a si mesmo e a seus objetivos e desejos. Os protagonistas de Licorice Pizza (idem, 2021) são a síntese desse segundo tipo.

No filme, que está indicado a três Oscars, Gary (Cooper Hoffman), 15 anos, apaixona-se por Alana (Alana Haim), 25. Os dois moram em Encino, bairro de Los Angeles. Na cidade, os dois tocam projetos de vida muito diferentes, ainda que ambos enraizados na relação que estabelecem com aquela paisagem. Gary é um empreendedor prematuro, também ambicionando uma carreira como ator. Alana vaga entre possibilidades de vida para ela mesma, repetidamente se envolvendo com trabalhos que a permitem criar um tipo de distanciamento entre o que ela faz e quem ela é.

O lugar ocupa uma posição central em Licorice Pizza. Encino é fabricado por Anderson nas andanças dos personagens, no trânsito parado e nas fachadas de lojas e casas suburbanas. Ainda que esteja em exercício a representação de um espaço facilmente identificável com uma época, Anderson está menos interessado em produzir um reconhecimento do período e lugar por referências textuais que por uma recuperação de textura, temperatura e cor. A Los Angeles do filme pode nos lembrar quando e onde estamos pelos títulos na marquise de cinema, mas é com dinâmicas cênicas mais complexas que essa ambientação realmente se apresenta: na tensão entre o espaço dentro e fora de uma delegacia e na textura dos colchões de água, reveladora de uma ideologia e economia de seu tempo, como o filme brilhantemente também desenvolve. Além disso, essa Los Angeles é uma de carros parados e transeuntes se movimentando sem rumo. Se, como alguns autores defendem, a cidade é feita das nossas ações e movimentos nela, a Los Angeles de Licorice Pizza é um viajante estagnado, um corpo dando voltas em ciclos incompletos.

Dessas deambulações, algumas se destacam: primeiramente, a sequência em que Alana faz um teste para uma série de televisão e contracena com um ator consolidado do cinema clássico e, aparentemente, do gênero de guerra, interpretado por Sean Penn. A sequência demonstra uma melhor compreensão por parte de Anderson da ambiguidade ideológica que reside na confusão entre Los Angeles como cidade cênica e como um lugar que existe para além do cinema do que se vê em outros diretores, como, por exemplo, Quentin Tarantino.

Alana Haim é a segunda deambulação de destaque. Como Alana, a atriz incorpora o que os personagens impossíveis de Anderson carregam de melhor: uma alienação dura, incompreensível, mas ainda carismática. Desde a primeira cena, quando se apropria do excesso de luz da fotografia do filme, revelando uma personagem que é sempre uma com o espaço por onde circula, ela assume uma posição de descrever aquela paisagem com os seus movimentos erráticos. Como em outros dos melhores filmes de Anderson, é na relação de trocas gestuais entre o diretor e seus atores que o filme cresce e ganha a dimensão de estranha grandeza com que tem sido recebido, como um épico da desorientação e do fracasso.

Comentários (1)

Alexandre Koball | segunda-feira, 07 de Março de 2022 - 13:42

Eu amo o clima do filme, mas o personagem do pirralho é quase insuportável.

Gabriel Cine | terça-feira, 08 de Março de 2022 - 13:44

Não seria essa a intenção?

Alana Haim está ótima e merecia mais que Penelope e Nicole estar no Oscar. Não só ela como tb Reinsve e Jodie Comer

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