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Rambo - Programado Para Matar

(First Blood, 1982)
7,3
Média
450 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Primeiro sangue

8,5

Há algum tempo, um jornalista norte-americano afirmou que se não existissem as continuações de Guerra nas Estrelas – Uma Nova Esperança (Star Wars, 1977), o filme original seria bem mais reconhecido e valorizado como uma obra única. O que pode ser bem verdade, porém não tanto como o é para Rocky – Um Lutador (Rocky, 1976) e Rambo – Programado Para Matar (First Blood, 1982), os dois maiores clássicos estrelados por Sylvester Stallone, e que no imaginário crítico e popular repercutem até hoje sob a mitologia que as franquias em torno de ambos os personagens construíram ao longo de suas continuações. Levando até mesmo a confusões ideológicas: se os dois primeiros Rocky refletiam a era Jimmy Carter, que buscavam recuperar uma autoestima coletiva após os desastres do Vietnã e Watergate (com Stallone assumindo e invocando uma admiração e confiança no presidente do Partido Democrata), e os dois filmes seguintes da série (bem como as continuações de Rambo) pertencentes a uma safra conservadora sob os mandatos Reagan, o First Blood original era um filme de transição dos anos setenta para os oitenta, e bem mais difícil de enquadrar num contexto político e social nebuloso.

Esteticamente, também é um filme de transição de uma década para a seguinte, com um pé na anterior e um outro nos oitenta que se iniciava. E longe de uma história de ação pueril, sobretudo devido à três atributos: o romance original de David Morrell, publicado dez anos antes; o próprio Stallone, ainda que com uma carreira desigual naquele período, um ator e roteirista premiado e admirado pela crítica antes da guinada para os ditos filmes de ação inconsequentes; e o diretor Ted Koetchef, que em vinte anos construíra uma filmografia mais ou menos respeitável (um de seus trabalhos fora premiado com o Urso de Ouro em Berlim em 1974). First Blood inscreve-se numa linha de filmes que tocavam na ferida do Vietnã, com personagens que retornavam de uma guerra na selva asiática com dificuldades de adaptação e que já não eram bem vistos, tornando-se vítimas ou encontrando antagonistas em meio à loucura urbana, como Taxi Driver (idem, 1976), A Outra Face da Violência (Rolling Thunder, 1977), O Franco-Atirador (The Deer Hunter, 1978). Além da questão da violência como resposta à violência recebida, gerando ainda mais violência, o que estava em voga desde o lançamento de obras polêmicas, tais como Sob o Domínio do Medo (Straws Dogs, 1971), Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971) e Desejo de Matar (Death Wise, 1974). Em First Blood, entretanto, o conflito e o preconceito aconteciam sob responsabilidade de uma autoridade de poder responsável por controlar e manter a ordem nas ruas.

O livro original reimaginava a guerra do Vietnã transposta para uma cidadezinha dos EUA, onde um ex-combatente utilizava de seus conhecimentos de armas e táticas de guerrilhas para enfrentar os próprios norte-americanos. No filme, existe uma suavização do argumento, para não parecer exagerado na tela o que funcionava razoavelmente bem na literatura. Se no romance o personagem, perturbado emocionalmente, se convertia em um monstro dizimando um grande número de pessoas, na adaptação para o cinema Stallone não alcançava o status de herói, devido à ausência de uma causa que não fosse de moral questionável, mas um anti-herói em luta pela liberdade e sobrevivência. Esconde-se em grutas, ocasiona explosões em posto de gasolina e em carros. Certa vez comentei com um amigo que First Blood poderia ter sido um filme de Howard Hawks ou de Sam Peckinpah, no que ele concordou, fazendo a ressalva de que se fosse de um desses diretores, levando em conta principalmente os westerns que eles dirigiram, Rambo teria matado muito mais pessoas.

E há algo de western de First Blood, com o protagonista se deslocando até uma cidade isolada e remota, entrando em confronto com o xerife que identifica no forasteiro um elemento indesejável para a tranquilidade local. Se muitas das figuras do western eram veteranos da Guerra Civil americana, John Rambo vinha de uma longa batalha em outro continente, um antigo boina verde, e condecorado de uma guerra cujos soldados mal podiam ser vistos como heróis, muitos deles voltando como estranhos à pátria depois de muitos anos longe. E se o xerife é o verdadeiro reacionário, muito se falou de Rambo nesse primeiro filme ser o selvagem injustiçado, com os cabelos ligeiramente compridos não o tornando necessariamente um hippie, mas possibilitando ser confundido com um vagabundo como eram vistos muitos dos hippies ou párias e andarilhos desde os anos sessenta. Trocam-se as estradas de areia pelas de asfalto, os cavalos e diligências pelas motocicletas, e veículos como automóveis, caminhões e até helicópteros, mas subsiste os ares de comunidade e do próprio gênero que se transmutou para os filmes de ação modernos da década de setenta em diante.

O primeiro Rambo já é, sobretudo, um filme de guerra; de uma estranha guerra do personagem contra autoridades policiais e militares de seu país. E ao escapar da delegacia onde fora detido, numa cena de fuga que remete à de Steve McQueen em Fugindo do Inferno (The Great Escape, 1963), Rambo reencontra na floresta um habitat que lhe tornara familiar, semelhante ao das selvas asiáticas, onde se confirma praticamente impossível de ser capturado, em que os papéis de caçador e caça se confundem, com a natureza robusta - que já era vislumbrada da cidade através das paisagens montanhosas - podendo tanto ser uma ameaça quanto aliada. O interrogatório na delegacia despertara no personagem a semelhança com os maus modos com que fora tratado pelos vietnamitas enquanto prisioneiro de guerra. First Blood trabalha muito nos paralelos e também nos contrastes. Cidade e floresta, paz e guerra, normalidade e loucura, calmaria e intempérie.

As suas cenas de ação e perseguição se mostram intensas, porém notavelmente realistas, ganhando muito com a contribuição da trilha sonora de Jerry Goldsmith, e com relativamente pouco exibicionismo do físico de Stallone, com o personagem criando a partir da lona velha de um caminhão abandonado a veste que o protege do frio. Sua caracterização é cuidadosa e impecável, escorada no drama e na psicologia do personagem, com diálogos e falas não mais que o necessário em se tratando de um anti-herói silencioso e arredio, explodindo em um discurso de grande apelo emocional apenas no clímax. O ator é muito bem acompanhado de veteranos pouco reconhecidos ou bem aproveitados até então, os talentosos Brian Dennehy (falecido em 2020) e Richard Crenna, que interpretam, respectivamente, Teasle, o xerife algoz, e Trauttman, o coronel mestre do protagonista. Nas cenas entre ambos, acontece quase que um duelo de magos, embora não sejam inimigos, e os diálogos (especialmente o do bar) se apresentem como um interstício, algo de civilidade num mundo tomado pela barbárie e hostilidade, dividindo o filme entre um ato e outro, onde ao final alguém terá que ser sacrificado, com Trautman surgindo tanto para resgatar seu pupilo quanto para salvar seus adversários dele próprio. É uma relação criador e criatura, e um dos pontos inquietantes desse primeiro filme é a capacidade do Estado em gerar soldados como verdadeiras máquinas de matar, com esta última em descontrole após ser provocada, e pronta para a destruição.

Spoiler: o texto daqui em diante revela detalhes do desfecho

Nas comparações com o livro original, sempre se invocou que o personagem morre no final, o que chegou a ser filmado, com Rambo dando fim à própria vida, no que coroaria o filme como uma grande tragédia, e não apenas o ótimo drama de ação que ele é. Particularmente, se hoje preferiria a morte no desfecho, é para que não houvesse as continuações (embora tenha me divertido sobremaneira com elas durante alguns anos). Porém, em termos cinematográficos, uma cena de morte sendo até mesmo previsível, levando em conta os muitos finais negativos na Nova Hollywood (onde os protagonistas frequentemente morriam), também poderíamos dizer que o final que ficou possui algo de belo, e raro, com o personagem entregue, rendido, sob escolta e aceitando o encarceramento. De quantos filmes conhecemos finais melancólicos como esse? Difícil lembrar, e igualmente de filmes tão iguais a este, tão novo e único, que Stallone ao ver a primeira versão maior cogitou comprá-lo para impedir a sua exibição, ao se reconhecer na tela como uma máquina de destruição, acreditando que não teria como continuar a sua carreira depois. Continuou, e redefiniu a sua persona, não necessariamente para melhor, porém à despeito de infindáveis imitações e derivados mais fracos, Rambo – Programado Para Matar tem a sua influência percebida em filmes relevantes, como O Predador (The Predator, 1987), de John McTiernan, O Fugitivo (The Fugitive, 1993), de Andrew Davis, Caçado (The Hunted, 2003), de William Friedkin, e Matança Necessária (Essential Killing, 2010), de Jerzy Skolimowsi. E prossegue como um marco e a culminância da melhor fase da filmografia do seu astro.

Comentários (2)

Davi de Almeida Rezende | terça-feira, 13 de Outubro de 2020 - 01:55

Naquela época os filmes de ação ainda tinham conteúdo.

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