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Críticas

Cineplayers

Um desastre com muitos culpados.

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Assistir o novo filme de Jayme Monjardim faz retomar velhos conceitos sobre o cinema nacional e sobre verdades (?) estabelecidas. Não há nenhuma dúvida que nosso nível de produção subiu, paralelamente a quantidade de filmes produzidos e lançados também crescente. O cinema brasileiro de melhor qualidade hoje tem uma pegada mais naturalista, com pessoas falando em decibéis normais; muita gente usa esse tipo de cinema para acusar a captação de som conseguido nos nossos filmes ainda, não se dando conta de que isso é proposta cênica. Mas não é sob esse aspecto que esse debate me vem a cabeça ao assistir essa primeira adaptação das obras de auto-ajuda de Augusto Cury. Porque toda técnica que o dinheiro pode comprar está a disposição de 'O Vendedor de Sonhos', e nada é suficiente para tornar o filme bom. 

O mais assustador é perceber o diretor de tv que Monjardim já foi e ainda é. Um dos responsáveis pela emblemática 'Pantanal', o diretor seguiu na tv entre altos e baixos mas sempre na ativa. Há 5 anos teve um primeiro encontro com a novelista Licia Manzo, e ao lado dela já esteve por trás de duas grandes aulas de dramaturgia seja o veículo que for, 'A Vida da Gente' e 'Sete Vidas'. Na maioria das vezes (e nos três produtos descritos em particular, e um plus para a fabulosa minissérie 'A Casa das Sete Mulheres'), Monjardim deu exemplos de como contar bem uma história, independente da matriz de origem; eventualmente foi acusado de fazer "cinema na tv", em sinal de mérito. Pois bem, porque nas três vezes então que esteve na condução de filmes em si Monjardim primou por fazer nada mais do que produtos engessados e televisivos, ou o pior que pode ser feito na televisão? Produções genéricas, rasteiras, sem qualquer tipo de maior construção estética diferenciada e também sem uma proposta de assinatura: é por aí o caminho dele, inclusive aqui. Ou principalmente aqui. Ou mais que nunca aqui. 

Então não adianta nada se você tem uma fotografia dita "elaborada", uma trilha sonora algo "emocionante" ou ainda uma dupla de protagonistas talentosa quando seu projeto nada mais é do que um aparente especial de fim de ano de tv, com mensagens edificantes ditas a cada 5 minutos num roteiro que simplesmente não faz nenhum sentido (um grupo dos maiores milionários paulistas iria a uma palestra motivacional a pé no meio da madrugada num cemitério?), com situações que transitam entre o estapafúrdio e o inacreditável. Eu já falei dos clichês? Pois bem, o que vocês diriam de um deprimido desesperado e suicida que é salvo da sacada de um prédio por um misto de mendigo e sábio, também ele caído em desgraça, e cuja amizade vai mover a narrativa? E isso é só o começo de um roteiro mal escrito e absurdo que nada mais faz além de fazer seu protagonista repetir coisas do tipo "o primeiro beneficiário do perdão é quem perdoa, e não quem é perdoado" e "o ser humano não morre quando o coração para de bater, mas quando deixa de se sentir importante". Tudo isso a cargo de LG Bayão, guardem esse nome: ele escreveu esse e também 'O Último Virgem', 'Entrando numa Roubada', 'Um Suburbano Sortudo' e 'Irmã Dulce'. 

Qualquer pessoa com um mínimo de proteção a própria carreira teria fugido de um roteiro tão tóxico como esse, mas Monjardim já nos deu 'Olga' e 'O Tempo e o Vento', ou seja, ele não tem qualquer problema em continuar produzindo exemplares no qual devemos fugir. Mas ele foi além dessa vez, mesmo que os três tenham em comum o fato de não parecer nada além do que um produto televisivo ruim: nenhuma matéria-prima. A verdade é que Augusto Cury não é Fernando Morais, muito menos Erico Veríssimo, e seus livros embora tenham muitos fãs e muitas vendas, faltam a eles algo que os eleve para além da auto-ajuda pura e simples. Se antes ao menos ele tinha uma base a destruir, agora ele parte de uma premissa que por si só é muito frágil, e conseguiu um roteirista cujo "talento" simplesmente não conseguiu transpor as barreiras da obra em questão. Será que algum conseguiria? 

Pra encerrar, como encarar Dan Stulbach e Cesar Troncoso depois desse projeto? Não que eles tenham culpa (na verdade, se alguém nesse elenco pode ser culpado é Leopoldo Pacheco, numa interpretação patética de vilão mexicano com rosto de pedra), mas os coitados são os protagonistas absolutos e estão imersos em linhas e mais linhas de diálogos ruins, e acabam não tendo nada a fazer que não tentar sair da areia movediça, algo que Camila Morgado, Marjorie Estiano e Fernanda Montenegro (por duas vezes!) já tiveram que lidar com o fato de protagonizar produções cinematográficas dirigidas por Monjardim e sobreviveram, inclusive dentro dos próprios filmes. Os rapazes infelizmente são assolados por um todo onde não somente nada se salva, como também acaba criando uma pecha tão ruim a 2016, um ano que tantas vezes repeti por aqui como foi o melhor do cinema brasileiro em muitos anos, acaba tendo esse mesmo ano um filme brasileiro como o seu pior. Obrigado, Jayme Monjardim.

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