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Críticas

Cineplayers

Uma obra-prima sobre a revelação de um super-herói para o mundo.

9,0

Em um filme lotado de antíteses, do bom e do mau, da morte e do renascimento, da revelação do novo, Shyamalan trouxe ao mundo sua segunda obra-prima na forma de cinema. Corpo Fechado, filme de nome popularizado aqui no Brasil, não pode ser visto como “o novo filme do diretor de O Sexto Sentido”, e sim como um trabalho absolutamente original, de um diretor genial que sabe como entreter e como desenvolver personagens e situações a partir de questões comuns. Este é mais um filme sobre pessoas normais em situações absurdas, impensáveis, que coloca à prova o comportamento humano perante o misterioso. Não é um simples suspense com final surpreendente. É muito mais, é uma ode à força do ser-humano comum perante a verdade incompreensível. É um filme que merece ser analisado de forma carinhosa e especial, assim como ele é.

Atenção: apenas leia a matéria, a partir daqui, se não se importar em saber detalhes fundamentais do enredo do filme. Esta é uma análise mais aprofundada do mesmo, e abordará a maioria dos pontos existentes no filme.

“Eles me chamavam de Senhor Vidro.”

Diz a filosofia de Shyamalan (e certamente de muitas outras pessoas – não é exclusividade do mesmo) que cada um tem o seu oposto. Diz o ditado popular que os opostos se atraem. Na realidade, ou seja, na prática, muitos morrem sem descobrir isso. Ou então muitos têm medo dos opostos, e fazem questão de evitá-los. Elijah Price, o personagem vivido de forma muitíssima competente por Samuel L. Jackson, passou toda a sua vida à procura de seu oposto exato. Ele nasceu com o que parecia ser uma maldição. Nasceu com inúmeros ossos quebrados (a cena inicial, dirigida sem cortes – característica de muitas cenas filmadas pelo diretor em seus filmes – magistralmente por Shyamalan, desde a angulação da câmera até o tom deprimente das vozes dos personagens) e viveu uma infância sofrida e uma adolescência horrivelmente humilhante, por causa de uma doença que fazia seus ossos serem frágeis como cristal, doença esta raríssima, mas que existe na vida real.

Todo esse sofrimento tinha que ter um propósito.

Acreditando na idéia da existência do seu oposto no mundo, um oposto que seria exatamente tudo o que ele não é, que seria forte, inquebrável, Elijah, amante de histórias em quadrinhos, transforma sua vida em uma busca incessante por ele, o que seria o tal propósito na sua vida.

“Por que você se tornou um segurança? Você podia ter sido tantas outras coisas... começar uma cadeia de restaurantes...”

David Dunn é uma pessoa infeliz, cidadão ordinário da cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, onde trabalha de segurança em um estádio de futebol. Uma viagem de trem (sou obrigado a repetir: esta cena foi também dirigida magistralmente pelo diretor, que a filma de uma maneira sublime, passando de um personagem – Dunn – a outro no enquadramento – a moça que se senta a seu lado, de maneira simples mas muito inteligente) acaba em tragédia, matando mais de uma centena de pessoas, e só ele sai ileso, sem um arranhão sequer (última citação desse tipo: a cena do hospital, com o paciente morrendo após o sangramento em plano desfocado, é igualmente genial às duas já anteriormente citadas).

Dunn é alguém especial, só que ele não sabe disso e, mesmo que soubesse, não poderia entender isso sozinho.

Logo, então, ele é abordado por Elijah, que tenta convencê-lo de que ele é, na verdade, um super-herói, com poderes sobre-humanos. Ora, qualquer um que vivesse um pouco sequer pela lógica veria nessa idéia algo de absurdo. Então, David fecha-se a ela e revive um caso trágico de quando era mais novo, envolvendo sua esposa. Alguém que viveu isso não poderia ser um super-herói.

Para complementar, a relação entre David, seu filho e sua esposa é difícil. Isso é muito bem evidenciado na cena em que David e a esposa (uma interpretação, mesmo que rápida e limitada, muito boa de Robin Wright Penn) se dão as mãos diante do filho, mas as soltam assim que ele dá as costas a eles.

“Eles dizem que esse aqui tem um final surpresa.”

Claro, entende-se que após o final chocante e surpreendente de O Sexto Sentido (não conheço quem o tenha matado, embora já li algumas opiniões – duvidosas – relatando que alguns o fizeram) o público esperaria algo tão interessante quanto no próximo trabalho do diretor. Shyamalan não só não decepcionou (embora o final não seja melhor), como brincou com o espectador com a referência acima (no filme, a frase foi dita em relação a um gibi pela mãe de Elijah).

O final de Corpo Fechado não requer que o filme seja revisto. E mesmo não atiça a curiosidade do espectador para isso. Mas é a explicação derradeira, necessária e que fecha todas as pontas até aquele momento soltas. Somos apresentados ao verdadeiro e repugnante Senhor Vidro. Mas a ironia é que suas intenções, ao provocar aquelas tragédias, mostraram-se boas, ao menos justificadas para ele mesmo, e então corremos o risco de simpatizar com aquele personagem. Não foi ódio que senti ao descobrir sobre os atos de Elijah, e sim pena. Ao custo de milhares de vidas humanas, ele conseguiu descobrir seu propósito de vida, e isso o torna também uma figura humana, não um estereótipo de filmes de ação que agem puramente pelo caos injustificado ou então por dinheiro ou motivos fúteis e mesquinhos. Temos um vilão multidimensional, complexo. O perfeito vilão para um herói perfeito. Mas na realidade, ambos estão longe de serem perfeitos.

Sobre o final, fica a mensagem de que ele é também perfeito, e mesmo que não “divirta” tanto quanto o final do filme anterior do diretor, Corpo Fechado, de qualquer forma, não foi escrito em cima do mesmo como naquele caso. De certa forma, é um final perigoso. Muitos podem se irritar, achando que é forçado e bobo (como, aliás, é fato comum de ser visto). Mas na realidade, o final apresentado (assim como todo o resto do filme, mais ainda que o final), respeita a inteligência do espectador, desde que este seja um pouco atento.

A real batalha é pela revelação

David Dunn é imortal por meios naturais. Isso poderia render cenas de ação incríveis, se esse fosse o objetivo do diretor. A cena do ocupante da casa, porém, é mais do que suficiente para demonstrar isso. Funciona melhor do que dezenas de cenas de ação no mesmo filme. Em uma sequência comum, sem o uso de efeitos especiais (pelo menos digitais), Shyamalan mostra todas as habilidades e forças do herói em um momento, para logo mostrar toda a fragilidade dele, que de forma estúpida, quase humilhante, poderia ter sido derrotado... por uma piscina cheia da água. Todo herói, afinal, tem seu ponto fraco, e David Dunn, “O Segurança”, não é diferente de nenhum deles.

Heróis humanizados existem em um número razoável no cinema (veja Homem-Aranha, Hulk, Wolverine, enfim, exemplos não faltam), mas nesse nível não. Shyamalan mostra que ser super-herói não é tão divertido quanto a idéia demonstra que seja. A grande batalha, a grande perseguição do roteiro é com relação a revelar um novo herói para o mundo. É fazer uma pessoa ordinária sob todas as formas crer que é especial. Não é um processo fácil. Aqui entra outro ponto decisivo para o personagem de Bruce Willis: a escolha. Ele, no fundo, sabe da verdade, já a enxerga, mas tem medo de escolher – o que é natural, visto que é uma situação difícil, extraordinária. Essa indecisão é outro ponto que torna o herói do filme tão humano, sensível e real.

Um só é o suficiente

Inicialmente Shyamalan pensou no projeto do filme como sendo a primeira parte de uma trilogia. O descobrimento de um herói, a revelação de um vilão. O diretor não chegou a confirmar esse informação de forma muito explícita (acredita-se que a falta de grande sucesso comercial tenha tirado essa idéia da cabeça dos produtores, embora isso seja apenas um rumor), então não existem muitas idéias de como seriam o segundo e terceiro filmes. Provavelmente partiriam mais para o lado da ação ao mesmo tempo que aprofundariam o relacionamento do herói David Dunn com sua família e seu mundo. De qualquer forma não adianta ir muito em frente e ficar especulando. Corpo Fechado é filho único. Considero que assim seja melhor. Sequências, por melhor que sejam, acabam desvalorizando o trabalho encontrado nos filmes originais. Creio que seja interessante ficar imaginando “como seria” o segundo filme, o gostinho desse mistério é muito mais interessante, pelo menos pra mim. Imaginar as possibilidades de um segundo filme é ótimo, e se ele fosse realmente realizado, isso não seria mais possível de ser feito.

Corpo Fechado não precisa de uma sequência.

Este filme é uma grande homenagem de um apaixonado por quadrinhos que, talvez sem querer, acabou realizando um dos melhores filmes sobre super-heróis já criados. Em termos de desenvolvimento de personagens e realismo é sem dúvida o melhor de todos. Mais uma obra-prima que, infelizmente, nem todos conseguem enxergar como tal. Já virou cult e tem milhares de fãs espalhados por todos os países. Merece!

Não cheguei a analisar muito aspectos técnicos, porém a fotografia do filme é maravilhosa, mostrando uma Filadélfia depressiva, cinzenta. A direção também é estupenda: Shyamalan abusa dos takes contínuos, tentando criar cenas com poucos cortes quando possível, o que exige mais do talento dos atores. Todo o filme é incrivelmente bem interpretado. O diretor também cria cenas que parecem sair dos quadrinhos (a cena do trem, perto do início, filmada atrás das poltronas, destacando um personagem por vez, é um exemplo claro disso). Corpo Fechado é um filme de ritmo extremamente lento – o principal motivo de reclamação pelos espectadores – porém essa característica permitiu que a história fosse crescendo em um nível perfeitamente realista. Shyamalan vai soltando as informações sobre o passado de seus personagens, através de flashbacks, aos poucos, criando uma expectativa imensa em torno dos próximos acontecimentos. Como o roteiro é dele, e a Disney deu-lhe todas as liberdades para escrevê-lo, ele demonstra total controle sobre os personagens e as situações. Enfim, um gênio que entende da linguagem cinematográfica como poucos na atualidade.

Informações e curiosidades sobre Corpo Fechado (parte do conteúdo abaixo é proveniente do site Internet Movie Data Base)

Shyamalan tem como super-herói favorito o Homem-Aranha. Repare na pequena homenagem ao personagem na loja de quadrinhos.

Transcrição de parte da notícia que David Dunn mostra a seu filho, no jornal, depois da revelação: Manchete: SALVO “Herói” resgata duas crianças; pais encontrados mortos na casa Por Nicole Marsella História: hoje a polícia está investigando o que aparenta ter sido uma invasão de residência que deixou três mortos em Bala Cynwyd. Os agentes e detetives estão perplexos pelas circunstâncias e motivações de um bom Samaritano que na última noite resgatou duas crianças pequenas. Detalhes do incidente são pequenos, mas a polícia acredita que depois de libertar as crianças, o desconhecido herói lutou e matou o invasor da casa responsável pelas mortes dos pais delas. A polícia ainda está tentando descobrir a identidade do “herói”. As crianças descreveram ele como tendo aproximadamente seis pés de altura, vestindo uma capa verde-escura... Qualquer informação levando à sua identidade seria imensamente apreciada pela Polícia da Filadélfia...

O filme se passa na Filadélfia. Em um jornal, na parede do estúdio de Elijah, há uma manchete anunciando que “um vírus letal foi solto em aeroporto”. Bruce Willis estrelou Os 12 Macacos, no qual um vírus letal foi liberado pela primeira vez em um aeroporto da Filadélfia.

O logotipo da estação de notícias reportando o acidente de trem é o mesmo usado pelo grupo de super-heróis da Marvel O Quarteto Fantástico. Ele pode ser visto durante o noticiário mostrado na televisão.

A música tocada no piano durante a exibição de Elijah é a mesma sendo praticada pela mãe de Rogue em X-Men, de 2000.

Elijah pergunta a David o que fez ele escolher proteção como carreira ao invés de todas as outras coisas que ele poderia ter sido, como “fundador de uma cadeia de restaurantes”. Na vida real, Bruce Willis é um dos fundadores do Planet Hollywood, uma cadeia de restaurantes.

Várias cenas relacionadas com o Senhor Vidro envolvem vidro:
- como recém-nascido, ele é primeiramente visto refletido em espelhos;
- como criança, ele é visto refletido na tela da televisão;
- ele deixa uma carta a Dunn no vidro do carro;
- ele é mais uma vez refletido pelo vidro em sua galeria;
- sua bengala é feita de vidro.

Como em vários quadrinhos, os personagens principais são identificados por cores específicas. A de David é verde e a de Elijah é roxa. Elas são encontradas em suas roupas, no papel de parede e camas em suas casas.

Como acontece com muitos personagens heróis de quadrinhos, o nome real do personagem é uma aliteração: David Dunn, assim como existem Peter Parker, Bruce Banner, Matt Murdock e Clark Kent.

Comentários (8)

César Barzine | sexta-feira, 12 de Maio de 2017 - 18:17

Ótima análise, uma das melhores que já vi! Deu até vontade de rever o filme.

Seja Lá Quem Tiver Sido | sábado, 13 de Maio de 2017 - 01:53

"Inicialmente Shyamalan pensou no projeto do filme como sendo a primeira parte de uma trilogia (acredita-se que a falta de grande sucesso comercial tenha tirado essa idéia da cabeça dos produtores, embora isso seja apenas um rumor)"

Bom saber que hoje depois de muito tempo ele resolveu fazer as sequências, Split não é tão bom quanto Unbreakable, mas ainda sim é um ótimo filme.

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