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Críticas

Cineplayers

Processo de auto-análise

9,5

AVISO: o texto a seguir não tratará da trama e dos desdobramentos em série do longa metragem, mas de como seus signos e símbolos foram lidos pelo jornalista. Ainda assim, através desses mesmos elementos, informações sobre suas metáforas podem incorrer nos temidos 'spoilers', embora todo o cuidado para que isso não ocorra seja feito. Dito isso, é por conta e risco do leitor ficar a mercê da interpretação de sua análise.

Quantos cineastas hoje usam o tempo a seu favor? O Tempo, enquanto elemento macro mesmo. Ao propor um programa de aparente catarse emocional a plateia, Jordan Peele consegue envelopar cada espectador para uma proposta reflexiva muito mais ampla e abrangente, sem jamais fugir dessa aparência mais veloz, mas não menos importante. O tempo a que me refiro e da qual Peele quer ser amigo não tem a ver com a duração da obra em questão, mas desse projeto de cinema que não sai do espectador. A bordo de realizar um cinema para as massas, mais uma vez o diretor de Corra! elabora um jogo onde a ele cabe plantar as perguntas, e ao espectador levá-las pra casa e, aos poucos, unir os mecanismos dispostos rumo a análise mais aprofundada entregue de bandeja. 

Quando o filme se abre, a jovem protagonista Addy pede ao pai uma blusa e ganha: Thriller, de Michael Jackson. É uma coincidência, exatamente nesse momento, esse personagem que voltou a dominar as rodas de conversa, ser admirado por uma criança? Bom, esse é um dos motes que disparam a trama propriamente dita do filme, as coincidências cercam a protagonista e sua família durante uma viagem, 30 anos após os eventos dos primeiros 10 minutos. Jordan Peele investe nessa coluna de acasos para sustentar uma narrativa que promove as reflexões que já começam no título, muito irônico e oportuno. Daqueles casos onde o acerto já começa no batismo. Tudo passa realmente por nós, os do filme e os que assistem o mesmo.

O que levamos pra casa no novo pacote de provocações sociais costurado com destreza por Peele? Há mais de 10 anos o intercurso social passou a ser a internet (que, sutilmente, parece espiar o filme), e essa explosão de seu poder nos conflagrou nos mais recentes anos em lugares de oposição em relação a basicamente tudo. Através das redes sociais, todo ser humano passou a ser um avatar de si mesmo - existe o 'eu' real e o 'eu' social, representado pela minha persona virtual. Essa persona muitas vezes se parece com seu dono, tem os mesmos sonhos e anseios, é utilizada pelo próprio mas deixa aflorar instintos não muito sociáveis, tantas vezes descanbando para o mais primitivo de cada um. De nós. A investigação de Peele passa pelo lugar onde não deveríamos acessar da nossa personalidade, mas que já veio a tona e não está nos fazendo bem em nenhuma instância. Parece bobo e doutrinador no papel, mas a forma como 'Nós' borda esse tecido é de profundo bom gosto.

E essa colcha costurada pelo jovem diretor tem como fundamento não decepcionar nenhuma parcela dos fãs conquistados com seu acerto anterior. Existiu há dois anos atrás uma multidão de alimentou o boca a boca de sua estreia e fez dela um dos 'debuts' mais rentáveis da História, e outro grupo igualmente enorme (muitos se confundiam nesses lugares) que destrinchou Corra! e toda sua acertada carga político-social. O novo filme complexifica ainda mais o mundo em que vivemos, o papel de uma família negra bem sucedida (de fazer Barry Jenkins lamentar), e amplia o escopo para um debate ainda mais abrangente e universal, como o espelhamento dos papéis sociais que somos obrigados a desempenhar. Com isso, não apenas uma parcela significativa do público se sente recompensado pelo diretor (justamente a que consome diversão em massa e pode encontrar em Peele uma nova garantia em entretenimento, que precisam de um autor que os estimule), como também a fatia que tratará de reconfigurar o olhar e as imagens compostas por ele na intenção de encontrar os 'easter eggs', tanto visuais quanto narrativos. E acreditem: são tantos que uma sessão apenas não é suficiente para revelar cada camada. 

Tecnicamente impecável, de trilha sonora que nos coloca sob a égide da tortura por toda a duração e com uma montagem nunca menos que brilhante, que recorta e costura tempos diferentes sempre que necessário e decide quando mostrar e quando esconder cada detalhe. Tirando alguns excessos cômicos meio deslocados vez por outra, o longa tem um desenrolar perfeito, ainda que esse dado já seja identificado como parte integrante da mão do autor. Na frente do grupo de atores muito equilibrado, a força e a presença de Lupita Nyong'o são indescritíveis. Daqueles momentos únicos na carreira de alguém, que a já reconhecida atriz atravessa e evolui, alcançando a partir daqui um patamar não apenas elevado, mas praticamente inexplorado nos acessos que o roteiro propõe e na forma como ela executa, com perfeição. 

Além de fazer mais um belo filme de gênero mesmo, Jordan Peele abre ainda mais as possibilidades que o horror sempre atentou, de como as relações humanas e os momentos específicos de cada Tempo podem pautar os distúrbios incontroláveis pelo qual cada sociedade acaba mergulhando. Não é a toa que Os Pássaros e A Noite dos Mortos Vivos são homenageados pelo seu autor, tendo cada qual representado uma mudança profunda em suas esferas, cada qual à sua época. 'Nós' vem situar mais uma vez o horror como porta de entrada das discussões sociais contemporâneas, como os grandes já fizeram. E nada mais preocupante e revelador do que somos hoje do que voltar a olhar para os nossos próprios impulsos sociais. 

Comentários (2)

Robson Oliveira | terça-feira, 26 de Março de 2019 - 11:59 | Responder

Que filme foda! Cheio de tensão, suspense de extrema qualidade, atuação anormal da protagonista. Mais uma perola de Peele. Se continuar assim será um mito a nível Tarantino.

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