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Mulher do Desejo, A

(Mulher do Desejo, A, 1975)
6,9
Média
8 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Geografia do horror

8,0

A Mulher do Desejo (1975), do argentino radicado no Brasil Carlos Hugo Christensen, é o segundo filme de uma trilogia de horror incompleta criada por ele. O diretor não conseguiu encerrá-la como gostaria, após iniciar o seu projeto com Enigma para Demônios (1975). Na década de 1990, ainda retomou o seu trabalho com o gênero em um filme intitulado A Casa de Açúcar, que dialogava com os filmes de horror anteriores, porém não conseguiu finalizá-lo, apesar de ter realizado as filmagens.

Christensen foi um dos realizadores que melhor trabalhou com os gêneros cinematográficos no Brasil. Diretor prolífico nas décadas de 1940 e 1950 na Argentina, foi contratado pela Cinematográfica Maristela para dirigir Mãos Sangrentas (1955). Após a estreia no estúdio paulista, continuou a carreira no país, passando pelos mais diversos filmes, como a comédia Crônica da Cidade Amada (1965), o melodrama O Menino e o Vento (1967) e o faroeste Caingangue, A Pontaria do Diabo (1973). Sua incursão no horror foi um passo natural em seu caminho como realizador.

Em A Mulher do Desejo, Marcelo (José Mayer) descobre que seu tio rico e misterioso deixou para ele e sua esposa, Sônia (Vera Fajardo), uma polpuda herança. A princípio, a atitude parece anormal, pois Marcelo não tinha contato com o tio que, inclusive, não ajudou a própria irmã quando ela ficou viúva. A justificativa, porém, é que o casarão deve ser preservado e, para receberem a fortuna, devem se mudar para Ouro Preto/MG imediatamente e habitar a mansão sem modificá-la de forma alguma.

Como um bom casal de classe média, Marcelo e Sônia não vêem dificuldades em deixarem os compromissos pregressos de suas vidas para assumir as posses herdadas. Afinal, diante de um sonho equivocado de uma classe que deseja ascender socialmente a enfrentar os problemas sociais do país, a herança se torna a melhor possibilidade de realizar os sonhos sem confrontar o status quo. Não é por acaso que Marcelo trabalha em um banco, instituição que promove as transações financeiras e controla o capital, mas do qual Marcelo e a esposa não têm condições de usufruir. Além de receber a herança, deslocar-se para uma pequena cidade no interior é um facilitador para o casal deixar os problemas em Belo Horizonte, cidade em que viviam até então.

Logo no começo, os personagens se mudam para Ouro Preto, onde a narrativa se desenrola. A pequena cidade do interior de Minas Gerais carrega um passado rico da história do país. Inclusive é uma das principais localidades do Brasil Colônia por conta da extração de ouro. O que, é claro, enriqueceu uma pequena parcela da população que tinha, de forma geral, ascendência portuguesa. Por outro lado, também manteve um grupo de pessoas na miséria. É nesse contexto que a mansão do tio Osman (José Mayer, novamente) se torna um lugar valioso, porém, ao mesmo tempo, amedrontador. Pois é símbolo de um passado de riqueza e de violência. Como destaca Carolina (Palmira Barbosa) — a nova empregada do casal —, ela jamais entraria na mansão de Osman com ele por lá, ainda mais junto de seu sinistro mordomo (José Luiz Nunes).

Carlos Hugo Christensen carrega na morbidez do cenário compondo ambientações bastante sombrias com pouca entrada de luz externa e momentos de extrema escuridão. A geografia de Ouro Preto também é importante, pois, como não é uma cidade lembrada pelo sol, a escuridão faz mais sentido. Além de tudo, fica em uma região que faz bastante frio no inverno e a névoa que cobre a cidade transmite um clima de tensão que Christensen faz questão de adensar conforme a narrativa vai ficando mais sinistra.

A cidade do interior de Minas Gerais também se faz importante pelo número de igrejas de arquitetura suntuosa erguidas durante os tempos de extração de ouro. Não por acaso, um personagem importante é o Padre Paulo (Neimar Fernandes), que também é forasteiro como Marcelo e Sônia e observa o início da estadia dos dois em um dos casarões mais conhecidos e temidos da cidade.

A religião em A Mulher do Desejo traz angústia e um passado de opressão e obediência de forma bastante veemente. Não que o assunto não fosse abordado no cinema brasileiro por diferentes vieses. Seja pelo humor em Três Colegas de Batina (Darcy Evangelista, 1961), seja pelo resgate da cultura afrobrasileira em Amuleto de Ogum (Nelson Pereira dos Santos, 1974), passando por um universo complexo e heterogêneo da temática religiosa, como: A Primeira Missa (Lima Barreto, 1961), O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962), Barravento (Glauber Rocha, 1962), Deus e o Diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964), O Padre e a Moça (Joaquim Pedro de Andrade, 1965), Vereda da Salvação (Anselmo Duarte, 1965), Madona de Cedro (Carlos Coimbra, 1968), Janaína - a virgem proibida (Olivier Perroy, 1972) e Cordão de Ouro (Antônio Carlos da Fontoura, 1977). Entretanto, Christensen traz uma perspectiva original de terror psicológico em sua abordagem do tema.

Mesmo o cinema de horror brasileiro tem em seu personagem mais famoso, o coveiro Zé do Caixão, um sujeito que crê em forças místicas, embora afirme não acreditar em Deus ou no Diabo. Inclusive, o desejo do personagem popularizado por José Mojica Marins pela “continuação do sangue” lembra, de alguma maneira, o interesse de Osman em possuir o corpo de seu sobrinho para se relacionar com Sônia, mulher que ele acredita ser a encarnação de Ligia  moça que amou durante a juventude, mas pela qual não foi correspondido.

Essa condição, inclusive, gera uma das sequências mais indigestas. Durante a transformação de Marcelo em Osman, Sônia tem uma relação sexual com os dois homens que habitam o mesmo corpo. Sem que ainda tenha descoberto que Marcelo está, aos poucos, sendo possuído pelo tio, ela vai para a cama com ele. A forma como o corpo da moça se contorce associada ao seu rosto de repulsa — que Christensen capta em belos close-ups — quando percebe que há algo de errado, é o auge do horror nauseante e repulsivo conduzido pelo realizador. Além de retratar o sexo fora do casamento reprimido pela igreja católica como uma das perversidades de Osman.

Cecília se dá conta de que há algo estranho na casa e teme por Sônia. Contudo, não é para a polícia a quem se dirige, mas ao Padre Paulo. A figura do representante da igreja funciona como a de um juiz da pequena cidade. Como comparação, vale lembrar do clássico mexicano Maria Candelária (María Candelaria ou Xochimilco, 1944), de Emílio Fernandez. No filme, quando a protagonista é oprimida pela população, é o padre quem defende a moça e define a forma certa de agir às pessoas, com base nos preceitos da igreja.

Ainda em comparação com o cinema do México, a flor que está nas mãos de Osman no caixão e se torna uma obsessão para Marcelo é um típico símbolo das narrativas de excesso comuns no cinema latino-americano que constroem metáforas dos sentimentos dos personagens a partir de simbolismos. A representação da morte pela flor, por exemplo, se parece bastante com a flor roubada do cemitério em Santa Entre Demônios (Salón México, 1948), do mesmo Emilio Fernandez.

Carlos Hugo Christensen assimila características da cultura brasileira e latino-americana para conduzir um filme de motivações universais. Pois, se a história de possessão é reconhecida em diversas narrativas mundo afora, características intimamente maternas a transformam em uma experiência de maior ojeriza para o espectador.

Crítica integrante do especial Abrasileiramento apropriador do Halloween

Comentários (2)

Igor Guimarães | sábado, 17 de Outubro de 2020 - 05:10

Grande Lucas! Referência foda do Índio!

Lucas Reis | sábado, 17 de Outubro de 2020 - 18:55

Pois é! Emilio Fernández é gigante! Os filmes circularam bastante no Brasil na época! Assim como em toda a América Latina.

Maria José Barros | sábado, 17 de Outubro de 2020 - 18:07

Christensen: figura icônica do horror brasileiro.

Lucas Reis | domingo, 18 de Outubro de 2020 - 02:31

Sim! Ele deveria ser mais lembrado na história do cinema brasileiro!!!

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